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Schwartsman: rombo de R$ 80 bi em 2025 revela subestimação sistemática

Ex-diretor do BC aponta que déficit de 2025 triplicou a projeção oficial e alerta que 2026 já abre com R$ 60 bilhões de rombo e sem ajuste à vista

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TL;DR · 4 min de leitura

Ex-diretor do BC aponta que déficit de 2025 triplicou a projeção oficial e alerta que 2026 já abre com R$ 60 bilhões de rombo e sem ajuste à vista

A primeira revisão bimestral do orçamento federal de 2026 trouxe uma admissão constrangedora: o déficit primário aprovado na Lei Orçamentária Anual, de R$ 23 bilhões, saltou para R$ 60 bilhões logo no início do exercício. O economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, classifica o erro como “feio” e “rude” e levanta uma hipótese incômoda: a subestimação pode não ser acidente.

O padrão se repete com fidelidade perturbadora. Em 2025, segundo o Estadão, a lei orçamentária previa déficit de R$ 30 bilhões. O valor efetivamente observado chegou a R$ 80 bilhões, quase três vezes o projetado. Em 2026, a revisão de abertura já coloca o rombo em R$ 60 bilhões com o ano fiscal ainda no começo.

Nenhum dos dois desvios veio do lado da receita. Tributos foram superestimados, mas o aumento no preço do petróleo compensou boa parte do erro. O foco de Schwartsman recai sobre o gasto obrigatório: previdência, Benefício de Prestação Continuada, abono salarial e seguro-desemprego. São rubricas cujo comportamento pode ser calculado com meses de antecedência e que, ainda assim, surgem fora do orçamento.

O que torna o erro difícil de engolir

O salário mínimo, que baliza uma série de benefícios previdenciários e sociais, é definido em lei e conhecido antes da aprovação do orçamento. A evolução demográfica, que determina o ritmo de crescimento das aposentadorias e do BPC, também não é novidade para nenhuma equipe técnica do governo. Se os dados estão disponíveis e os modelos existem, Schwartsman pergunta: por que as estimativas erram tanto, e sempre na mesma direção?

A resposta implícita na coluna do economista no Estadão é que projeções otimistas servem a um propósito político: facilitar a aprovação do orçamento no Congresso. Corrigir o desvio ao longo do exercício, via revisões bimestrais e decretos de contingenciamento, passa a ser a estratégia real, mas o ajuste raramente ocorre na magnitude necessária. O título da coluna, referência irônica a Santo Agostinho, resume o raciocínio: “Fazei-me responsável, mas não agora.”

O vice-presidente da República declarou que o ajuste fiscal virá em 2027. Para Schwartsman, a afirmação é “risível”. Prometê-lo para o próximo mandato enquanto o déficit corrente já supera em mais de 160% o valor aprovado em lei não é planejamento fiscal, é adiamento institucionalizado.

O custo para quem paga a conta

Déficits maiores do que o projetado pressionam a dívida pública e elevam o custo de rolagem do passivo. Numa economia com juros reais entre os mais altos do mundo, cada bilhão adicional de rombo tem efeito ampliado: o Tesouro precisa oferecer taxas mais altas para atrair compradores para seus títulos, o que retroalimenta o próprio déficit via despesa financeira.

Governo que sistematicamente subestima gastos perde credibilidade junto ao mercado de capitais. O prêmio de risco sobe, o câmbio se deprecia e as condições de crédito para empresas e famílias pioram. A análise de Schwartsman não detalha esse canal, mas o histórico de episódios similares na economia brasileira o torna implícito.

O arcabouço fiscal, aprovado em 2023 como substituto do teto de gastos, foi apresentado como mecanismo de contenção crível. A recorrência de revisões orçamentárias expressivas, sempre para cima, coloca em xeque se as regras têm força suficiente ou se falta disposição política para aplicá-las de fato.

O que vem pela frente

A próxima revisão bimestral, esperada para meados de 2026, vai indicar se a tendência se aprofunda ou se o governo consegue segurar a trajetória. Schwartsman não projeta um número final para o ano, mas a lógica dos dados sugere que R$ 60 bilhões pode ser só o começo. A questão relevante deixou de ser se haverá novo desvio e passou a ser de quanto.

Perguntas frequentes

Por que o governo erra tanto nas projeções de déficit?

As estimativas otimistas facilitam a aprovação do orçamento no Congresso. A correção é feita ao longo do exercício via revisões bimestrais, mas o ajuste raramente ocorre na magnitude necessária para fechar o buraco.

O que é déficit primário?

É a diferença entre receitas e despesas do governo, excluindo os juros da dívida. Um déficit primário significa que o governo gasta mais do que arrecada antes mesmo de pagar os encargos financeiros do passivo público.

Qual foi o déficit real em 2025?

Segundo Schwartsman, o valor observado em 2025 chegou a R$ 80 bilhões, contra R$ 30 bilhões previstos na LOA. O desvio de R$ 50 bilhões supera em muito qualquer margem prevista no arcabouço fiscal vigente.

O arcabouço fiscal vai conter os gastos em 2026?

A resposta ainda é incerta. A revisão de abertura do orçamento 2026 já ampliou o déficit projetado em R$ 37 bilhões. O desempenho das próximas revisões bimestrais dirá se o mecanismo tem eficácia real ou apenas aparência institucional.

Fontes

  • estadao.com.br — https://www.estadao.com.br/economia/alexandre-schwartsman/fazei-me-responsavel-mas-nao-agora/

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