Déficit federal pode chegar a R$ 80 bi em 2026, acima do previsto
Governo revisou estimativa de déficit primário de R$ 23 bi para R$ 60 bi em semanas; projeção independente aponta para R$ 80 bilhões ao fim de 2026.
Governo revisou estimativa de déficit primário de R$ 23 bi para R$ 60 bi em semanas; projeção independente aponta para R$ 80 bilhões ao fim de 2026.
A Fazenda admitiu, na primeira revisão bimestral de 2026, que havia subestimado gravemente suas projeções: o déficit primário estimado para o ano saltou de R$ 23 bilhões para R$ 60 bilhões em questão de semanas. Nossa projeção aponta para algo ainda mais grave, próximo de R$ 80 bilhões ao final do exercício.
Não é um erro pequeno. A Lei Orçamentária sancionada no ano passado previa um rombo de 0,2% do PIB para 2026. A primeira revisão já dobrou esse percentual, conforme análise publicada pelo Estadão. São R$ 37 bilhões a mais de déficit projetado em menos de dois meses de execução orçamentária.
Mas a piora não veio da arrecadação. A receita tributária estava de fato superestimada, mas o aumento do preço do petróleo compensou esse desvio. O problema, como de costume, está nas despesas obrigatórias: aquelas que o governo não pode reduzir simplesmente por decreto.
O que o governo sabia e preferiu ignorar
Falar em erro involuntário exige explicação. O salário mínimo, base de cálculo para Previdência Social, BPC, abono salarial e seguro-desemprego, já estava definido quando o Orçamento foi elaborado. A evolução demográfica, que determina em boa parte o ritmo de crescimento do gasto previdenciário, também é conhecida com anos de antecedência. Não há surpresa que justifique uma revisão de R$ 37 bilhões logo na primeira bimestral.
O economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, escreveu no Estadão que há um “certo elemento intencional” nesse padrão. O argumento é direto: apresentar um número mais otimista na LOA cria a aparência de cumprimento do arcabouço fiscal, mesmo que a realidade se revele outra meses depois.
Em 2025, o roteiro foi idêntico, segundo o mesmo levantamento do Estadão. A lei previa déficit de R$ 30 bilhões, e o resultado observado ficou bem acima dessa marca. A sequência de revisões ao longo do ano passou sem maior debate público.
Um padrão que corrói a credibilidade fiscal
O arcabouço fiscal aprovado em 2023 foi vendido como mecanismo de controle de gastos. Na prática, o que se observa é uma régua que mede o que o governo quer que ela meça, ajustada conforme a necessidade política. Subestimar o déficit na LOA permite ao governo afirmar que está dentro das metas durante os primeiros meses do ano.
Acontece que os mercados financeiros não esperam pelo fim do ano para fazer suas contas. O aumento do prêmio de risco nos títulos públicos ao longo de 2025 mostra que investidores já incorporaram essa desconfiança nos preços dos ativos. Um déficit de R$ 80 bilhões em 2026 representaria cerca de 0,55% do PIB, quase três vezes o que constava na lei original.
Para quem mantém um negócio ou investe no Brasil, isso não é debate acadêmico. Juro alto é custo de capital alto. Câmbio pressionado significa importação mais cara e inflação resistente. O elo entre contas públicas deterioradas e o bolso do contribuinte é direto e documentado.
O que vem pela frente
O vice-presidente Geraldo Alckmin declarou que o ajuste fiscal virá em 2027. Schwartsman, na análise publicada pelo Estadão, classifica essa postura como “risível”: quanto mais o ajuste é postergado, maior o custo necessário para reequilibrar as contas.
A próxima revisão bimestral deve sair em junho. Se o padrão dos últimos dois anos se repetir, o número de R$ 60 bilhões será revisado novamente para cima. A questão é se o governo vai anunciar medidas concretas antes disso ou vai esperar a revisão para admitir o que os dados já mostram agora.
Perguntas frequentes
O que é déficit primário? É o resultado negativo das contas do governo quando se comparam receitas e despesas, excluindo os juros da dívida pública. Déficit primário significa que o governo gasta mais do que arrecada antes mesmo de contabilizar os encargos da dívida.
Por que o déficit de 2026 subiu tão rápido? A primeira revisão bimestral do Orçamento revelou que as despesas obrigatórias estavam subestimadas na lei original. O salário mínimo e a evolução demográfica, que determinam grande parte desses gastos, já eram dados conhecidos no momento em que o Orçamento foi elaborado.
O que é o arcabouço fiscal? É a regra aprovada em 2023 para substituir o teto de gastos. Limita o crescimento das despesas a 70% do aumento das receitas, com margem de 0,25% do PIB acima ou abaixo da meta de resultado primário fixada anualmente.
Por que isso afeta quem tem empresa ou investe? Déficit elevado pressiona os juros para cima, pois o governo precisa oferecer rendimentos maiores para atrair compradores dos seus títulos. Juros altos encarecem o crédito, reduzem o investimento e sustentam uma inflação mais resistente ao longo do tempo.
Fontes
- estadao.com.br — https://www.estadao.com.br/economia/alexandre-schwartsman/fazei-me-responsavel-mas-nao-agora/