Schwartsman projeta déficit de R$ 80 bi e aponta subestimação fiscal
Economista ex-diretor do BC estima rombo de R$ 80 bilhões em 2026 e aponta que projeções deliberadamente otimistas tornam o ajuste fiscal urgente e inadiável.
Economista ex-diretor do BC estima rombo de R$ 80 bilhões em 2026 e aponta que projeções deliberadamente otimistas tornam o ajuste fiscal urgente e inadiável.
O Ministério da Fazenda reconheceu, logo na primeira revisão bimestral de 2026, que as projeções fiscais estavam fora da realidade. A Lei Orçamentária aprovada pelo Congresso previa déficit primário de R$ 23 bilhões; a revisão saltou esse número para R$ 60 bilhões. Um desvio de R$ 37 bilhões que não veio da arrecadação, mas de onde o problema fiscal brasileiro sempre reside: o gasto obrigatório.
Para o economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, o rombo pode ser ainda maior. Em artigo publicado no Estadão, ele projeta que o déficit primário de 2026 pode alcançar R$ 80 bilhões. E classifica como risível a declaração do vice-presidente de que o ajuste fiscal pode esperar até 2027.
A anatomia do erro
A receita não foi o problema central desta vez. A arrecadação de tributos estava ligeiramente superestimada, mas o preço do petróleo em alta compensou boa parte da diferença. O real ponto de falha, insiste Schwartsman, está na despesa obrigatória, cujo comportamento era previsível antes mesmo de o orçamento ser votado.
O salário mínimo reajustado arrasta automaticamente aposentadorias do INSS, o Benefício de Prestação Continuada (BPC), o abono salarial e o seguro-desemprego. A demografia entra na equação de forma igualmente previsível: uma população que envelhece pressiona os gastos previdenciários de modo mensurável e antecipável. Os dados estavam disponíveis. As projeções os ignoraram.
Um padrão que se repete
O episódio de 2026 não chegou sem aviso. Em 2025, o roteiro foi idêntico: a lei orçamentária previa déficit de R$ 30 bilhões, e o resultado efetivo ficou acima do estimado. Schwartsman levanta a hipótese de um elemento intencional nessas projeções, sugerindo que estimativas deliberadamente otimistas facilitam a aprovação do orçamento no Congresso, transferindo o problema para as revisões bimestrais ao longo do ano.
Se o padrão de 2025 se repetir, o déficit final pode se aproximar dos R$ 80 bilhões. O histórico recente pesa contra as projeções oficiais, e o mercado financeiro já precifica parte desse risco nas taxas de juros e no câmbio.
O custo para quem produz e poupa
Déficit primário não é apenas um número técnico reservado a especialistas. Quando o governo gasta mais do que arrecada antes de pagar os juros da dívida, o resultado é mais endividamento público, pressão adicional sobre as taxas de juro e inflação mais persistente. O Brasil já convive com a Selic elevada há anos, e um desvio de R$ 57 bilhões em relação à meta original torna o trabalho do Banco Central consideravelmente mais difícil para ancorar expectativas.
Há um ponto frequentemente ignorado no debate público: a credibilidade fiscal afeta o câmbio e o crédito de forma direta e imediata. Um governo que entrega resultados consistentemente piores do que os prometidos perde a confiança de investidores, encarece o financiamento da dívida pública e corrói o poder de compra de quem empreende, poupa ou recebe renda em reais.
O que vem a seguir
Novas estimativas orçamentárias serão apresentadas ao longo do ano. Se a dinâmica do gasto obrigatório continuar no ritmo atual, o arcabouço fiscal dificilmente absorverá o impacto sem consequências visíveis para preços e crédito. A questão central que Schwartsman coloca, conforme publicado no Estadão, não é se o ajuste será necessário, mas se o governo terá disposição para fazê-lo antes que o custo se torne ainda maior.
Perguntas frequentes
O que é déficit primário? É o resultado das contas do governo antes do pagamento dos juros da dívida pública. Quando negativo, indica que o governo gasta mais do que arrecada. O número importa porque alimenta o endividamento e pressiona as taxas de juros de toda a economia.
Por que o governo subestima o déficit? Segundo a análise de Schwartsman, pode haver elemento intencional: projeções otimistas facilitam a aprovação do orçamento no Congresso. O resultado real, divulgado nas revisões bimestrais, costuma superar o previsto, como ocorreu em 2025.
O que é o BPC e por que importa para as contas públicas? O Benefício de Prestação Continuada é um pagamento mensal de um salário mínimo a idosos e pessoas com deficiência em situação de baixa renda. Por estar atrelado ao salário mínimo, cresce automaticamente a cada reajuste e figura entre os itens de maior expansão no orçamento federal.
O que Schwartsman projeta para 2026? O economista estima déficit primário de até R$ 80 bilhões, superando os R$ 60 bilhões revisados pelo governo na primeira revisão bimestral. Ele argumenta que os dados para uma projeção mais precisa estavam disponíveis desde o início do ano, o que torna o erro das estimativas oficiais de difícil justificativa técnica.
Fontes
- estadao.com.br — https://www.estadao.com.br/economia/alexandre-schwartsman/fazei-me-responsavel-mas-nao-agora/