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Brasilia 4 min de leitura

Economistas que apostaram em Lula cobram promessa fiscal que nunca chegou

Gestores e ex-dirigentes que votaram em Lula no segundo turno de 2022 acusam o governo Lula 3 de esgotamento fiscal e deterioração das contas públicas.

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TL;DR · 4 min de leitura

Gestores e ex-dirigentes que votaram em Lula no segundo turno de 2022 acusam o governo Lula 3 de esgotamento fiscal e deterioração das contas públicas.

Luis Stuhlberger, gestor do Fundo Verde e presidente da Verde Asset, escolheu palavras pesadas ao se dirigir a investidores: afirmou que se arrepende de ter acreditado que o PT teria seriedade fiscal. A declaração sacudiu o mercado financeiro não pelo conteúdo em si, mas por quem a fez. Stuhlberger havia sinalizado, em 2021, que não voltaria a votar em Jair Bolsonaro. Em 2022, sua posição foi lida pelo mercado como aval tácito à candidatura petista.

Poucos dias antes, Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central e sócio da Gávea Investimentos, usou a expressão “deterioração explícita” das finanças públicas ao Estadão. Fraga declarou voto em Lula no segundo turno de 2022, invocando a defesa da democracia como justificativa. Agora, o diagnóstico é outro.

Outros nomes que apoiaram ou sinalizaram preferência pela candidatura petista naquela disputa, como Pedro Malan, Elena Landau, Henrique Meirelles e Persio Arida, também já manifestaram decepção com os rumos econômicos. O padrão é inequívoco: não se trata de adversários históricos, mas de figuras que apostaram na promessa de responsabilidade fiscal e agora cobram a conta, como documenta o Estadão.

O diagnóstico do mercado

O ponto central das críticas é o espaço fiscal. Stuhlberger afirmou que toda a margem de gastos prevista pelo arcabouço já está comprometida nos orçamentos dos dois próximos exercícios, consumida por novas despesas criadas no governo Lula 2025. Além disso, não há muito espaço para elevar impostos sem provocar reação política e econômica. O resultado é uma armadilha conhecida: gastou-se o que não havia, e o ajuste fica progressivamente mais caro.

Lula tem uma leitura diferente. Em março, durante evento de pré-candidatura de Fernando Haddad ao governo de São Paulo, o presidente disse ao InfoMoney que a situação econômica do país é boa, mas que o problema está na percepção da sociedade. A frase merece atenção: quando a liderança do governo distingue realidade de percepção, o ônus de provar qual é qual recai sobre os números.

Os números, porém, não corroboram o argumento presidencial. Pesquisa Quaest divulgada em março de 2026 mostrou que 46% dos brasileiros enxergam piora na economia e 43% avaliam negativamente a condução econômica do governo Lula 3. Percepção, no fim, também é dado político.

As contas externas como termômetro

Dados divulgados nesta sexta-feira pelo Banco Central ajudam a compor o quadro. Segundo O Globo, as contas externas do Brasil fecharam abril com déficit de US$ 1,8 bilhão, alta de 12,5% frente ao mesmo período de 2025. No acumulado de 12 meses, o rombo chega a US$ 64,3 bilhões. O déficit na balança de serviços subiu para R$ 5 bilhões em abril, ante R$ 4,1 bilhões no mesmo mês do ano anterior, e os gastos de brasileiros no exterior cresceram 66,4%.

Há contrapesos positivos: o superávit comercial de bens avançou para R$ 9,7 bilhões em abril, e os investimentos diretos no país somaram US$ 8,9 bilhões no mês, alta de 64,8% na comparação anual. Esses números, contudo, coexistem com a deterioração fiscal interna e com o aperto monetário, cujo custo recai diretamente sobre empresas e consumidores.

O que a ruptura dos aliados significa

O que torna este momento distinto não é só o conteúdo das críticas, mas quem as faz. Stuhlberger e Fraga não são oposicionistas de plantão. São parte do establishment financeiro que, em 2022, ajudou a construir a narrativa de que Lula representaria previsibilidade. Quando esse grupo revisita publicamente suas apostas, o sinal enviado ao mercado é mais robusto do que qualquer análise de conjuntura.

Há um precedente que merece resgate: no primeiro mandato de Lula, entre 2003 e 2006, a âncora fiscal foi condição de sobrevivência política. O governo manteve superávit primário elevado mesmo sob pressão da ala mais intervencionista do PT. No governo Lula 3, a escolha foi diferente: expandir gastos e criar benefícios estruturais sem contrapartida fiscal clara. O arcabouço aprovado em 2023 deveria ser esse freio, mas agora é descrito pelos próprios críticos aliados como letra morta para os próximos dois anos.

A pergunta que o mercado formula, mas que o governo evita, é direta: se o espaço fiscal está esgotado e a pressão por gastos só aumenta em ano pré-eleitoral, qual será o mecanismo de ajuste? Sem resposta, o arrependimento público de Stuhlberger pode ser apenas o primeiro de uma série.

Perguntas frequentes

Por que economistas que apoiaram Lula em 2022 estão criticando o governo agora? Portque apostaram em promessas de responsabilidade fiscal que, segundo eles, não foram cumpridas. O orçamento de 2025 foi o ponto de ruptura para parte desse grupo, que descreveu a proposta como uma peça de ficção.

O que é o arcabouço fiscal e qual o problema com ele? É a regra aprovada em 2023 para limitar o crescimento das despesas públicas em substituição ao teto de gastos. As críticas apontam que novas despesas criadas pelo governo já esgotaram todo o espaço previsto pela regra para os próximos dois exercícios orçamentários.

Qual é o déficit externo do Brasil em 2026? Segundo o Banco Central, o déficit acumulado em 12 meses até abril de 2026 é de US$ 64,3 bilhões. Só em abril, o rombo nas contas externas foi de US$ 1,8 bilhão, 12,5% acima do registrado no mesmo mês de 2025.

O governo vai ajustar a política fiscal antes das eleições? Não há sinalização clara nesse sentido. O histórico recente de expansão de gastos e o contexto eleitoral sugerem pressão para manutenção ou ampliação das despesas, o que torna o ajuste cada vez mais dependente de um cenário externo favorável.

Fontes
  • estadao.com.br — https://www.estadao.com.br/economia/economistas-criticas-governo-lula-terceiro-mandato-gestao-contas-publicas-nprei
  • infomoney.com.br — https://www.infomoney.com.br/politica/situacao-economica-e-boa-mas-percepcao-da-sociedade-nao-e-diz-lula
  • oglobo.globo.com — https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/05/26/brasil-registra-deficit-de-us-18-bilhao-nas-contas-externas-em-abril-segundo-o-bc.ghtml
  • veja.abril.com.br — https://veja.abril.com.br/politica/investigado-por-corrupcao-claudio-castro-compromete-palanque-de-flavio-bolsonaro-no-rj/
  • jovempan.com.br — https://jovempan.com.br/noticias/politica/lula-lancara-universidade-indigena-na-quinta-apos-embate-politico-no-congresso.html
  • g1.globo.com — https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/05/26/stf-julga-nesta-terca-recurso-contra-decisao-que-acabou-com-aposentadoria-compulsoria-como-maior-punicao-a-magistrados.ghtml

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