Dólar | Selic | IBOV
Brasilia 4 min de leitura

Mercado reprova Lula: 90% avaliam governo como negativo

Com déficit primário previsto em R$ 60,3 bi para 2026 e pacote fiscal mal recebido, governo Lula enfrenta rejeição recorde entre agentes do mercado financeiro.

Compartilhar:
TL;DR · 4 min de leitura

Com déficit primário previsto em R$ 60,3 bi para 2026 e pacote fiscal mal recebido, governo Lula enfrenta rejeição recorde entre agentes do mercado financeiro.

Noventa por cento dos agentes do mercado financeiro avaliam o governo Lula como ruim ou péssimo. O número é da pesquisa Quaest/Genial, divulgada em dezembro de 2024, e representa o retorno ao patamar mais baixo da série histórica. Apenas 3% dos economistas ouvidos aprovam a gestão. Outros 7% a consideram regular.

O levantamento consultou profissionais de 105 fundos de investimento em São Paulo e no Rio de Janeiro entre o fim de novembro e os primeiros dias de dezembro. Não é uma enquete de opinião pública: é o diagnóstico de quem decide onde alocar capital no Brasil.

Esse patamar de rejeição já havia sido registrado em março de 2023, nos primeiros meses do governo Lula 3. Depois disso, houve uma breve recuperação: em julho do mesmo ano, quando o novo arcabouço fiscal e a reforma tributária avançavam no Congresso, a percepção melhorou. Era o sinal de que o mercado estava disposto a dar o benefício da dúvida.

O retorno à rejeição máxima

A trégua durou pouco. A deterioração das contas públicas foi corroendo a confiança ao longo de 2024. No final de novembro, o governo anunciou um pacote de contenção de gastos com corte previsto de mais de R$ 70 bilhões entre 2025 e 2026. A iniciativa poderia ter sido recebida como sinal de ajuste. Não foi.

O motivo está no timing: no mesmo anúncio, o governo apresentou a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. Para o mercado, a medida contradiz a narrativa de austeridade. O recado lido pelos analistas foi que o corte de gastos seria compensado por uma renúncia fiscal de impacto ainda indefinido, esvaziando o esforço de consolidação.

A resposta do Planalto ao diagnóstico foi reveladora. O presidente criticou abertamente o mercado financeiro e disse que “já ganhou 10%” dos agentes porque, nas eleições, todos eram contra. A ministra Simone Tebet foi além: afirmou que quem avalia o governo negativamente “joga contra o Brasil e quer afundar o país.” A crítica ao FMI também integrou o discurso, com Lula questionando a competência técnica da diretora do organismo por prever crescimento de 1,5% para 2024, estimativa que ficou, de fato, abaixo do resultado real.

O argumento presidencial tem uma consistência interna: se o PIB cresceu acima do esperado, por que a avaliação do mercado seria negativa? A resposta está na separação entre desempenho de curto prazo e sustentabilidade fiscal. Um PIB robusto num ambiente de juro alto e dívida crescente pode ser sinal de demanda aquecida por gastos públicos, não de economia saudável.

O que os números de 2026 revelam

Essa leitura encontra suporte nos dados mais recentes. O Relatório Bimestral de Avaliação de Receitas e Despesas enviado ao Congresso em maio de 2026 pela Agência Brasil mostra que a previsão de déficit primário para o ano subiu de R$ 59,8 bilhões para R$ 60,3 bilhões. O crescimento de gastos obrigatórios puxou a revisão. O governo bloqueou R$ 22,1 bilhões do Orçamento, não para cumprir a meta fiscal, mas para respeitar o teto de despesas do arcabouço.

O padrão se repete: o resultado dentro da regra parece controlado, mas a conta total, incluindo precatórios e exceções legais, segue deficitária. O mercado, que leu o mesmo número, não se convenceu de que a trajetória é sustentável.

Em discurso anterior, Lula havia enquadrado o debate como uma questão de prioridades sociais, afirmando que o Brasil tem uma dívida social “impagável” e que todo gasto em política pública é chamado de desperdício pelos críticos. Há um argumento legítimo ali, como registrou a Carta Capital. O problema é que esse enquadramento foi feito em julho de 2024, e os números fiscais seguiram piorando depois disso.

Responsabilidade fiscal não é inimiga do gasto social: é a condição para que ele seja sustentável. Quando o governo ignora esse vínculo, o mercado precifica o risco. E 90% de rejeição é uma precificação bastante clara.

O que vem a seguir

O governo Lula 3 enfrenta 2026, ano eleitoral, com um paradoxo incômodo: PIB em expansão, emprego relativamente aquecido e, ao mesmo tempo, mercado financeiro com avaliação no piso histórico. A questão que permanece sem resposta é se o Planalto vai interpretar esse sinal como problema a resolver ou como adversário a rebater.

Perguntas frequentes

Por que o mercado financeiro rejeita o governo Lula mesmo com o PIB crescendo?

O crescimento do PIB e a avaliação fiscal são métricas distintas. O mercado mira na trajetória da dívida, na consistência do arcabouço fiscal e nos sinais de política econômica de médio prazo, não apenas no resultado corrente de crescimento.

O que foi o pacote fiscal de novembro de 2024 e por que não convenceu?

O governo anunciou corte de mais de R$ 70 bilhões em gastos para 2025-2026, mas simultaneamente apresentou a isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil. A combinação foi lida como contraditória: corta de um lado, abre renúncia fiscal do outro.

Qual é o déficit primário do governo Lula em 2026?

O relatório bimestral de maio de 2026 prevê déficit primário total de R$ 60,3 bilhões, considerando precatórios e despesas excluídas da meta fiscal. Excluindo essas exceções, o governo projeta superávit de R$ 4,1 bilhões dentro do arcabouço.

O que é a pesquisa Quaest Genial e quem ela ouve?

É um levantamento periódico que consulta economistas de fundos de investimento, 105 ao total, em São Paulo e Rio de Janeiro. Não representa a opinião pública em geral, mas reflete a visão de quem aloca capital produtivo no país.

Fontes
  • cnnbrasil.com.br — https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/avaliacao-do-governo-lula-e-negativa-para-90-do-mercado-diz-quaest
  • cbn.globo.com — https://cbn.globo.com/politica/noticia/2024/12/05/lula-critica-mercado-e-diz-que-economia-pode-crescer-ate-4percent-em-2024.ghtml
  • cartacapital.com.br — https://www.cartacapital.com.br/politica/lula-volta-a-rebater-criticas-sobre-gastos-do-governo-e-diz-haver-uma-divida-social-impagavel
  • agenciabrasil.ebc.com.br — https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-05/com-precatorios-previsao-de-deficit-primario-sobe-para-r-603-bi
  • poder360.com.br — https://www.poder360.com.br/poder-congresso/oposicao-articula-ofensiva-contra-decretos-de-lula-para-big-techs/

Artigos relacionados