USP debate viabilidade e custo da renda básica universal
Pesquisadores da USP discutem fundamentos e custos da renda básica universal à luz de experimentos europeus e do debate fiscal no Brasil de 2025.
Pesquisadores da USP discutem fundamentos e custos da renda básica universal à luz de experimentos europeus e do debate fiscal no Brasil de 2025.
Um experimento conduzido pelo Instituto de Estudos Econômicos da Alemanha e pela Universidade de Economia de Viena entregou 1.200 euros por mês a 122 pessoas durante três anos, sem cobrar nada em troca. O resultado: melhora na qualidade de vida e na saúde dos participantes, sem queda no engajamento com o trabalho. Os dados reacenderam um velho debate.
O debate voltou à mesa da academia brasileira. Pesquisadores da Universidade de São Paulo foram ao Jornal da USP para discutir os fundamentos, os limites e os custos da renda básica universal, política que promete simplificar a distribuição de renda mas ainda não encontrou um modelo de financiamento crível em escala nacional.
O que é renda básica universal
Tainã Góis, doutoranda da Faculdade de Direito da USP, descreve a proposta com precisão: uma transferência direta e periódica do Estado para o indivíduo, em dinheiro, sem vouchers nem restrições de uso. A pedra central é a incondicionalidade. Não se exige trabalho, participação em programas sociais nem comprovação de necessidade. A condição para receber é uma só: ser cidadão.
Renan Kalil, pós-doutor em Direito do Trabalho pela USP e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados, observa que o debate atravessa o espectro político. Liberais veem na medida uma forma de substituir programas burocráticos fragmentados por uma transferência única e auditável. Progressistas a enxergam como resposta à automação e à precarização do trabalho. O ponto cego costuma ser o mesmo: o custo.
A experiência internacional
A Finlândia foi o primeiro país a testar a renda básica em escala nacional, pagando 560 euros mensais a desempregados selecionados. A Suíça foi mais longe: levou a proposta a referendo em 2016, após grupos cívicos reunirem 126 mil assinaturas. O desfecho foi taxativo, conforme registrado pelo DMT em Debate: 77% dos eleitores rejeitaram a medida, e nenhum partido suíço a defendeu abertamente.
Esse resultado não significa que o princípio seja inviável. Significa que, quando o debate sai do campo teórico e exige uma conta concreta, o apoio se dissolve. A pergunta que ficou sem resposta satisfatória na Suíça segue aberta no Brasil: quem financia, e quanto custa?
O que os experimentos não respondem
O estudo europeu tem limitações que o entusiasmo costuma encobrir. Uma amostra de 122 pessoas é pequena demais para projeções em países de grande população. Replicar o modelo para 200 milhões de brasileiros exigiria uma cifra fiscal que os defensores da proposta ainda não apresentaram com rigor. No contexto do governo Lula 3, em que o arcabouço fiscal já consome boa parte da energia política, qualquer proposta de nova despesa enfrenta escrutínio inevitável.
Conforme noticiado pelo esquerda.blog, setores progressistas têm defendido a renda básica como resposta à informalidade crescente e à ameaça da automação. O diagnóstico sobre o problema pode estar correto. A solução, em escala, ainda não foi provada.
O que as fontes não dizem
A renda básica tem um apelo administrativo concreto: a ideia de um sistema único, transparente e de custo operacional reduzido é atraente para qualquer gestor público que já lidou com a fragmentação de programas sociais sobrepostos. O Auxílio Emergencial durante a pandemia mostrou que o Estado brasileiro consegue mobilizar transferências rápidas. Mostrou também o tamanho da conta quando o modelo é universal e não tem prazo de encerramento.
O debate na USP, como registrado pelo Jornal da USP, tem o mérito de apresentar as condições em que a renda básica funciona e aquelas em que falha. O que ainda falta é um modelo de financiamento que não dependa de crescimento projetado nem de receitas futuras incertas. Sem essa âncora, a proposta continua sendo uma provocação intelectual legítima, mas incompleta.
O que vem a seguir
Para que o debate avance de fato, os defensores precisam responder a uma pergunta objetiva: qual combinação de cortes em benefícios existentes, novas receitas ou realocações orçamentárias sustenta uma transferência universal sem comprometer o equilíbrio fiscal? Até essa conta aparecer no papel, o experimento europeu com 122 pessoas continuará sendo citado como prova de conceito por quem prefere acreditar que a solução é simples.
Perguntas frequentes
O que é a renda básica universal? É uma transferência periódica em dinheiro do Estado para todos os cidadãos, sem condições ou contrapartidas. Não depende de situação de emprego, nível de renda nem participação em programas sociais.
Algum país adotou a renda básica de forma permanente? Não. Finlândia e outros países realizaram experimentos limitados. A Suíça levou a proposta a plebiscito em 2016 e foi rejeitada por 77% dos eleitores.
Quanto custaria implementar a renda básica no Brasil? Não há estimativa oficial consolidada para o modelo universal. O custo de uma transferência incondicional para toda a população adulta brasileira permanece objeto de debate, sem consenso fiscal.
A renda básica desestimula o trabalho? O experimento europeu com 122 participantes não registrou queda no engajamento profissional. Economistas divergem sobre os efeitos em larga escala, especialmente em economias com alto índice de informalidade como a brasileira.
- jornal.usp.br — https://jornal.usp.br/noticias/propostas-de-renda-basica-universal-desafiam-politicas-convencionais-de-distribuicao-de-renda
- dmtemdebate.com.br — https://www.dmtemdebate.com.br/retrospectiva-dmt-10-anos-renda-basica-universal