Governo Lula troca investimento produtivo por estímulos eleitorais
Economista Roberto Macedo aponta que medidas econômicas do governo Lula em 2026 miram reeleição, não crescimento: país investe só 17% do PIB quando precisa de 25%.
Economista Roberto Macedo aponta que medidas econômicas do governo Lula em 2026 miram reeleição, não crescimento: país investe só 17% do PIB quando precisa de 25%.
O governo federal abriu mão de R$ 1,78 bilhão em receita nos primeiros quatro meses de 2026 ao extinguir o imposto sobre compras internacionais de baixo valor. A decisão chegou a menos de cinco meses do primeiro turno das eleições presidenciais. Ficou conhecida como o fim da “taxa das blusinhas”.
Para o economista Roberto Macedo, o movimento segue um padrão. Em artigo publicado pelo Brasilagro, ele sustenta que a gestão do governo Lula tem como prioridade central a reeleição, não o crescimento estrutural. Os dados que embasam a crítica são concretos e pouco contestados.
A conta do fim da taxa
O tributo de 20% sobre pacotes de até 50 dólares vindos de plataformas como Shein, Shopee e AliExpress foi criado pelo próprio governo Lula em junho de 2024. Em 2025, rendeu R$ 5 bilhões aos cofres públicos, segundo a Receita Federal. Desfazê-lo agora, ao início do ano eleitoral, revela a lógica de curto prazo que orienta as decisões recentes.
Pesquisa da AtlasIntel registrou que entre 60% e 65% dos brasileiros consideravam o imposto o principal erro do governo, conforme análise da BBC News Brasil. O ministro do Planejamento, Bruno Moretti, descreveu a extinção como proteção ao consumo popular. Mas a mesma lógica poderia ter impedido a criação da taxa dois anos atrás.
O buraco que ninguém tapa
O problema central apontado por Macedo vai além do ciclo de criar e extinguir tributos. O Brasil investe cerca de 17% do PIB na formação bruta de capital fixo, como fábricas, estradas e portos. Chegar a um ritmo sustentado de crescimento exigiria elevar essa taxa a pelo menos 25%. A China, no auge de sua expansão, chegou a alocar 40% do PIB em investimentos por ano.
Esse atraso acumulado aparece em estudo do Fundo Monetário Internacional citado pelo Estadão: entre 1980 e 2025, o PIB per capita global cresceu 675%, enquanto o brasileiro avançou 428%. O Brasil ficou para trás mesmo de economias como Botsuana e Romênia na maratona do crescimento.
Números bons, percepção ruim
Laura Carvalho e Guilherme Klein, na Folha de S.Paulo, reconhecem as conquistas do governo Lula 3: PIB cresceu 3,2% em 2023, 3,4% em 2024 e 2,3% em 2025, com desemprego em mínimas históricas. Ainda assim, 42% dos brasileiros avaliaram a situação econômica como pior em pesquisa Ipsos-Ipec de março, contra 27% que a viam como melhor.
Crescimento existe. O que falta é do tipo que muda a base produtiva e eleva a renda de forma duradoura, não apenas por ciclos de consumo. O período dos governos Lula entre 2003 e 2010, documentado pela Unicamp, teve crescimento médio de 4,05% ao ano, impulsionado em parte por um ciclo favorável de commodities que não se repete agora.
O que os números escondem
Aqui está a distinção que o debate oficial frequentemente ignora: crescer 3% ao ano com expansão do consumo é diferente de crescer com aumento da capacidade produtiva e da produtividade. O governo Lula 3 herdou uma base de comparação favorável, após pandemia e anos de estagnação. Isso amplifica visualmente os indicadores positivos sem resolver o gargalo estrutural.
Nenhuma das medidas eleitorais anunciadas até agora endereça a taxa de investimento fixada em torno de 17% do PIB. Enquanto isso, o governo abre mão de arrecadação com olho no calendário eleitoral, não no balanço fiscal de longo prazo.
Com o primeiro turno em outubro, a tendência é de que o volume de estímulos ao consumo se intensifique nos próximos meses. A questão que o eleitor terá de responder é se política econômica de resultados e política eleitoral disfarçada de gestão pública são realmente a mesma coisa.
FAQ
Qual foi o impacto fiscal do fim da “taxa das blusinhas”?
O governo federal deixará de arrecadar o equivalente a R$ 5 bilhões por ano, com base no resultado de 2025 informado pela Receita Federal. Nos primeiros quatro meses de 2026, já havia acumulado R$ 1,78 bilhão antes da extinção.
Por que o PIB cresceu mas a percepção dos brasileiros é negativa?
Pesquisa Ipsos-Ipec de março de 2026 mostrou que 42% dos entrevistados julgavam a situação econômica pior do que seis meses antes, contra 27% com avaliação positiva. Economistas citam endividamento familiar, inflação em itens básicos e a comparação com o desempenho mais forte dos primeiros governos Lula como fatores que explicam a desconexão.
O que é a taxa de formação bruta de capital e por que ela importa?
É o percentual do PIB direcionado a novos investimentos produtivos. O Brasil está em torno de 17%, abaixo dos 25% considerados necessários para sustentar crescimento robusto. A defasagem explica parte do atraso do país no crescimento do PIB per capita global nas últimas décadas.
O governo tem algum plano para elevar essa taxa?
Até o momento, nenhuma das medidas anunciadas para 2026 trata diretamente do nível de investimento produtivo. O foco das ações recentes tem sido alívio tributário pontual e estímulo ao consumo imediato.
- brasilagro.com.br — https://www.brasilagro.com.br/conteudo/lula-e-seu-mau-governo-na-macroeconomia-por-roberto-macedo.html
- www1.folha.uol.com.br — https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2026/05/por-que-o-desempenho-economico-de-lula-3-nao-se-converte-em-popularidade.shtml
- brasildefato.com.br — https://www.brasildefato.com.br/2026/05/15/os-deslimites-do-governo-lula/
- bbc.com — https://www.bbc.com/portuguese/articles/c8e81p57r17o
- eco.unicamp.br — https://www.eco.unicamp.br/noticias/dimensoes-da-economia-brasileira-renda-emprego-e-desigualdade-nos-governos-lula-a-bolsonaro
- noticias.r7.com — https://noticias.r7.com/prisma/r7-planalto/cunha-garotinho-e-arruda-em-2026-stf-vai-bater-martelo-a-futuro-politico-por-lei-da-ficha-limpa-15052026/