Mercado projeta déficit primário em 0,50% do PIB pela 12ª semana
Relatório Focus do BC mostra estagnação nas projeções fiscais: mercado não vê saída para o desequilíbrio do setor público em 2026 e 2027.
Relatório Focus do BC mostra estagnação nas projeções fiscais: mercado não vê saída para o desequilíbrio do setor público em 2026 e 2027.
Pela décima segunda semana seguida, o mercado financeiro manteve sua projeção de déficit primário do setor público em 0,50% do Produto Interno Bruto para 2026, segundo o relatório Focus do Banco Central. O número está congelado desde fevereiro. Esse tipo de estagnação não é coincidência: é o mercado sinalizando que não enxerga nenhum catalisador capaz de mudar a trajetória.
A meta oficial para este ano prevê superávit de 0,25% do PIB no governo central, com margem de tolerância de 0,25 ponto percentual. Conforme apurado pelo Istoé Dinheiro, parte da diferença entre projeção e meta tem explicação técnica: o Focus cobre o setor público consolidado, que inclui estados, municípios e estatais, enquanto o alvo fiscal vale apenas para o governo central. Mesmo com esse desconto, a convergência simplesmente não aparece.
Para 2027, o quadro não melhora. A projeção de déficit primário ficou estável em 0,40% do PIB pela sétima semana seguida, enquanto a meta declarada é superávit de 0,50% do PIB. A diferença de 0,90 ponto entre o que o governo promete e o que o mercado acredita que vai acontecer é grande o suficiente para não caber em nenhuma zona de tolerância.
O rombo nominal, que já inclui o serviço da dívida, completa o cenário. A mediana do Focus para 2026 permanece em 8,50% do PIB pela oitava semana consecutiva, e a projeção para 2027 trava em 8,00%. Somando a trajetória da dívida líquida do setor público, que deve alcançar 69,90% do PIB neste ano e 73,48% em 2027, a estabilização fiscal prometida pelo governo Lula 3 segue como projeto, não como realidade.
O que o número revela
Quando a mediana do Focus fica ancorada por mais de dois meses no mesmo patamar, analistas e gestores simplesmente pararam de apostar em reversão. No jargão econômico, chama-se ancoragem negativa das expectativas: o mercado já precificou a incapacidade do governo de cumprir a meta fiscal antes mesmo do encerramento do exercício.
Esse cenário tem custo direto para o contribuinte. Um governo que acumula déficits nominais de 8,50% do PIB precisa se financiar com juros altos, o que pressiona a Selic e, por consequência, o crédito para empresas e famílias. A dívida acumulada hoje é o imposto de amanhã.
A distância entre narrativa e percepção
Em março, o presidente afirmou durante ato em São Bernardo do Campo que a situação econômica é boa, mas a percepção da sociedade ainda não acompanha, segundo a InfoMoney. Para o Planalto, o problema está no receptor da mensagem, não no conteúdo.
As pesquisas, porém, contam outra história. Levantamento da Ipsos-Ipec publicado pelo G1 apontou que 51% dos brasileiros avaliam como ruim ou péssima a gestão do governo no controle de gastos públicos. No combate à inflação, a rejeição chega a 50%. Em nenhuma das nove áreas medidas a avaliação positiva supera a negativa.
Esse desgaste tem raízes concretas. Em fevereiro de 2025, o Datafolha registrou aprovação de 24% para o presidente, queda de 11 pontos em dois meses, como reportou a CNN Brasil. Os principais fatores foram a inflação de alimentos, a desvalorização cambial e a percepção de que a política econômica pouco beneficia quem empreende ou vive de renda fixa.
O que vem pela frente
A estabilidade das projeções do Focus por tantas semanas seguidas indica que o mercado já formou opinião sobre o resultado fiscal de 2026. O risco não é mais de surpresa negativa pontual: é de deterioração gradual e silenciosa o bastante para adiar o ajuste necessário até depois de outubro. Se isso ocorrer, o próximo governo herdará não só o déficit, mas também a conta dos juros acumulados sobre ele.
Perguntas frequentes
O que é o relatório Focus do Banco Central? É uma pesquisa semanal com mais de cem instituições financeiras sobre expectativas para inflação, câmbio, PIB e resultado fiscal. Funciona como termômetro do que o mercado espera da economia brasileira e é referência para decisões de investimento e política monetária.
Qual a diferença entre déficit primário e déficit nominal? O resultado primário considera receitas e despesas antes do pagamento de juros da dívida pública. O nominal inclui esses juros, o que explica por que o déficit nominal projetado para 2026 (8,50% do PIB) é muito maior do que o primário (0,50%).
Por que o Focus projeta déficit maior do que a meta oficial do governo? Porque o Focus mede o setor público consolidado, que inclui estados, municípios e estatais, enquanto a meta fiscal do governo vale apenas para o governo central. Alguns gastos, como precatórios, também ficam de fora do cálculo oficial.
O que significa dívida líquida do setor público a quase 70% do PIB? Significa que o endividamento líquido equivale a quase todo o valor produzido pelo Brasil em um ano. A trajetória ascendente eleva o risco-país, pressiona os juros e encarece o crédito para empresas e consumidores.
- istoedinheiro.com.br — https://istoedinheiro.com.br/projecao-de-deficit-primario-do-setor-publico-em-2026-segue-em-050-do-pib-no-focus-do-bc
- g1.globo.com — https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/03/11/pesquisa-ipsos-ipec-avaliacao-governo-lula-areas.ghtml
- infomoney.com.br — https://www.infomoney.com.br/politica/situacao-economica-e-boa-mas-percepcao-da-sociedade-nao-e-diz-lula/
- cnnbrasil.com.br — https://www.cnnbrasil.com.br/politica/veja-os-5-fatores-que-levaram-o-governo-lula-a-pior-aprovacao/
- bbc.com — https://www.bbc.com/portuguese/articles/cgq77yl880xo
- valor.globo.com — https://valor.globo.com/politica/noticia/2026/05/11/lider-do-pl-protocola-nova-pec-da-anistia-apos-moraes-suspender-aplicacao-da-lei-da-dosimetria.ghtml