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Déficit, câmbio e inflação: a conta que o governo Lula não fecha

Projeções do Focus apontam déficit de 0,5% do PIB em 2026 pelo 12º mês. Câmbio, inflação de alimentos e dívida crescente cobram preço do contribuinte.

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TL;DR · 4 min de leitura

Projeções do Focus apontam déficit de 0,5% do PIB em 2026 pelo 12º mês. Câmbio, inflação de alimentos e dívida crescente cobram preço do contribuinte.

Há doze semanas consecutivas, as projeções do mercado financeiro para o déficit primário do setor público em 2026 não se movem: 0,50% do Produto Interno Bruto. A estabilidade do número no relatório Focus do Banco Central não é sinal de confiança. É sinal de que ninguém espera mudança de rumo.

A meta fiscal do governo para 2026 prevê superávit primário de 0,25% do PIB no governo central. O mercado projeta resultado oposto. A diferença não é só metodológica: parte dessa discrepância se deve a gastos que ficam fora da contabilidade oficial, como precatórios e despesas de defesa, segundo o IstoéDinheiro. O déficit nominal projetado para 2026 está em 8,50% do PIB pela oitava semana seguida. A dívida líquida deve fechar o ano em 69,90% do PIB e chegar a 73,48% em 2027.

O episódio que melhor ilustra como esse governo conduz sua política econômica ocorreu em junho de 2024. O governo federal publicou, sem aviso prévio e com efeito imediato, a Medida Provisória 1227, que restringiu créditos tributários de PIS e Cofins para milhares de empresas. A Veja narrou a reação em cadeia: advogados mobilizados, entidades setoriais em alerta, projeções de repasse de perdas ao consumidor final. Apresentada como “MP do Equilíbrio Fiscal”, a medida ganhou o apelido de “MP do Fim do Mundo” no setor privado e foi derrubada pelo Congresso na semana seguinte.

Derrubada em sete dias, a iniciativa deixou um estrago simbólico duradouro. Uma decisão tomada sem diálogo e revertida sob pressão sinaliza ao mercado o que pode acontecer da próxima vez que o caixa apertar.

O custo para o cidadão

O câmbio foi outro termômetro do ambiente de incerteza. Em dezembro de 2024, o dólar atingiu R$ 6,20, forçando uma correção gradual que levou a moeda a girar em torno de R$ 5,70 nos meses seguintes, segundo a CNN Brasil. Mesmo no patamar atual, o câmbio segue pressionando importações e custo de produção.

A inflação de alimentos fechou 2024 em 7,69%, quase o dobro do IPCA oficial de 4,83%. Para uma família de renda baixa ou média, esse dado é mais concreto do que qualquer projeção técnica. É a diferença no supermercado, semana a semana.

O resultado político chegou com velocidade. No terceiro mandato de Lula, uma pesquisa Datafolha de fevereiro de 2025 registrou aprovação presidencial em 24%, queda de 11 pontos em dois meses. Os fatores identificados pela pesquisa coincidiam precisamente com os dados econômicos: preço dos alimentos, dólar elevado e percepção de falta de rumo fiscal.

Lula, porém, segue na direção contrária em seu discurso. Em fevereiro de 2025, o presidente declarou que o Brasil “está infinitamente melhor do que nós pegamos” e que a economia supera as projeções iniciais. Os dados de crescimento apresentados pelo governo são corretos: 3,5% em 2024, segundo a FGV. Crescimento com dívida em trajetória ascendente e déficit nominal próximo de 9% do PIB, porém, não é estabilidade. É expansão custeada no crédito do Estado.

O que os números não mostram

Existe uma armadilha no debate fiscal que o governo explora com habilidade: confundir crescimento do PIB com solidez das contas públicas. São variáveis distintas. O Brasil cresceu 3,2% em 2023 e 3,5% em 2024 enquanto a dívida avançava e o déficit nominal superava qualquer meta anunciada. A expansão real não cancela uma trajetória que, se mantida, leva a juros mais altos, crédito mais caro e menor apetite por investimento.

Para o empreendedor que depende de financiamento e para o contribuinte que paga a conta dos juros da dívida pública, a questão não é se o governo cresceu acima das projeções. A pergunta é até quando esse modelo se sustenta sem um ajuste estrutural que o governo, até agora, não demonstrou disposição de fazer.

A próxima rodada do Focus vai mostrar se algo mudou. As últimas doze sugerem que não.

Perguntas frequentes

O que é o relatório Focus do Banco Central?

É uma pesquisa semanal com instituições financeiras que consolida projeções para inflação, câmbio, crescimento e resultado fiscal. Funciona como termômetro das expectativas do mercado e influencia diretamente as decisões de política monetária.

O que foi a chamada “MP do Fim do Mundo”?

A Medida Provisória 1227, publicada em junho de 2024 sem aviso prévio, restringiu créditos tributários de PIS e Cofins para empresas brasileiras. A reação do setor privado foi imediata e o Congresso derrubou a medida em menos de uma semana.

Por que o déficit nominal de 8,5% do PIB é tão maior que o déficit primário de 0,5%?

O déficit primário exclui o pagamento de juros da dívida pública. O nominal inclui tudo. A diferença reflete o custo financeiro do endividamento acumulado, que o contribuinte financia independentemente do resultado das contas no ano.

Como a trajetória da dívida pública afeta o cidadão comum?

Uma dívida crescente pressiona o governo a manter juros elevados, o que compete com gastos em saúde e educação e encarece o crédito para famílias e empresas. Com a Selic pressionada para cima, consumir e investir fica mais caro para todos.

Fontes
  • veja.abril.com.br — https://veja.abril.com.br/economia/com-decisoes-equivocadas-governo-lula-aumenta-a-incerteza-na-economia/
  • gov.br — https://www.gov.br/planalto/pt-br/acompanhe-o-planalto/noticias/2025/02/201co-brasil-hoje-esta-infinitamente-melhor-do-que-nos-pegamos-diz-lula-sobre-economia-do-pais
  • cnnbrasil.com.br — https://www.cnnbrasil.com.br/politica/veja-os-5-fatores-que-levaram-o-governo-lula-a-pior-aprovacao/
  • istoedinheiro.com.br — https://istoedinheiro.com.br/projecao-de-deficit-primario-do-setor-publico-em-2026-segue-em-050-do-pib-no-focus-do-bc
  • oglobo.globo.com — https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/05/11/presidenciaveis-da-direita-sobem-tom-contra-moraes-por-barrar-lei-da-dosimetria-e-oposicao-mira-retomar-debate-da-anistia.ghtml
  • g1.globo.com — https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/05/11/dino-defende-decisoes-monocraticas-e-diz-que-fim-do-modelo-geraria-colapso-no-judiciario.ghtml

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