Derrotas no Congresso ameaçam base de Lula e testam reeleição
Derrota inédita na indicação ao STF e veto derrubado marcam pior semana do governo Lula no Congresso, com reeleição em risco em ano eleitoral.
Derrota inédita na indicação ao STF e veto derrubado marcam pior semana do governo Lula no Congresso, com reeleição em risco em ano eleitoral.
Em menos de 24 horas, o Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal, primeira recusa histórica de uma indicação presidencial ao STF, e derrubou o veto presidencial ao projeto que reduz penas dos condenados pelo 8 de Janeiro. As duas votações foram registradas pelo Metrópoles como a sequência mais grave de derrotas legislativas desde que Lula voltou ao Planalto.
A sete meses do fim do terceiro mandato e com pesquisas mostrando um cenário incerto para a reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta o que interlocutores próximos descrevem ao O Globo como o pior momento de sua relação com o Congresso. O placar é ruim. Mais grave é o que ele revela sobre o controle do governo sobre a própria base.
O nome no centro do diagnóstico é Davi Alcolumbre, presidente do Senado. Aliados de Lula o apontam como articulador das duas derrotas. Alcolumbre nega. Mas a desconfiança já contaminou a relação, e com ela vem uma lista de riscos concretos: o projeto do fim da escala 6x1, tratado pelo Planalto como bandeira eleitoral do governo Lula 3, e a PEC da Segurança Pública podem não avançar antes das eleições. O governo teme ainda um cenário pior: pautas-bomba no segundo semestre, que poderiam embaralhar o orçamento às vésperas da campanha.
A crise com o Congresso
A tensão atual não surgiu da semana passada. Desde o retorno ao Planalto em 2023, o governo Lula acumulou derrotas que foram minimizadas na narrativa oficial. O Congresso reverteu a medida provisória de reorganização dos ministérios, limitou estatais no saneamento e aprovou decreto contra o Marco Legal do Saneamento, votação que chegou a 295 favoráveis à derrubada contra apenas 136 do lado do governo, segundo o Metrópoles.
Nas gestões atuais de Hugo Motta na Câmara e Alcolumbre no Senado, as derrotas se tornaram mais pesadas: a derrubada da MP do IOF e a nova lei do Licenciamento Ambiental foram aprovadas contra a vontade do Executivo. O que muda agora é o calendário. Cada votação perdida vira munição eleitoral, e a oposição já circula a narrativa de um Executivo em declínio.
Dentro do Planalto, o debate sobre como reagir está aberto. Uma ala defende resposta firme, mobilizando a retórica do Congresso contra o povo. A outra pede cautela, com olho nos riscos de uma escalada até dezembro. Nenhuma das duas opções é confortável para um governo que ainda precisa de aprovação parlamentar para governar.
O problema da percepção
Além do front legislativo, o governo enfrenta uma batalha narrativa que não conseguiu vencer. Em março, o próprio Lula admitiu o problema em ato de campanha no ABC paulista: “A situação econômica é boa, mas a percepção da sociedade ainda não é boa”, conforme registrou a InfoMoney.
Os números das pesquisas confirmam esse diagnóstico. Levantamento Quaest divulgado em março mostrou que 46% dos brasileiros avaliam que a economia piorou e 43% reprovam a gestão econômica do presidente. O aumento nos combustíveis, acelerado pela guerra no Irã, aprofundou o desgaste. O governo tentou subsidiar parte do reajuste, mas encontrou resistência dos estados, que se recusaram a renunciar à arrecadação do ICMS.
Para um presidente que depende de aprovação popular para viabilizar a reeleição, a distância entre indicadores macroeconômicos e a experiência cotidiana do eleitor não é apenas uma questão de comunicação. É o problema central.
O campo adversário se organiza
Neste domingo, em culto na Zona Norte do Rio de Janeiro, o pastor Silas Malafaia fez aceno público à candidatura do senador Flávio Bolsonaro à presidência, conforme reportou a CartaCapital. Em dezembro passado, o mesmo Malafaia havia criticado o lançamento da candidatura como amadorismo da direita. A virada de postura sinaliza que o campo bolsonarista começa a convergir em torno de um nome, ainda que de forma gradual.
O timing não é neutro. A convergência da oposição ocorre no momento em que o governo Lula está mais fragilizado no Congresso. A questão que os próximos meses vão definir é se o Planalto consegue reconstruir pontes com o Senado sem ceder pautas centrais ou se entra na campanha de 2026 carregando um Legislativo declaradamente hostil.
Perguntas frequentes
Por que a indicação de Jorge Messias ao STF foi rejeitada? O Senado barrou a indicação de forma inédita, numa votação que aliados do governo atribuem à articulação do presidente do Senado, Davi Alcolumbre. O senador nega ter atuado contra o Planalto.
O projeto do fim da escala 6x1 ainda pode ser aprovado antes das eleições? A ruptura entre o Planalto e a presidência do Senado coloca em dúvida o avanço de pautas estratégicas do governo. O calendário eleitoral reduz a janela disponível para votações importantes no segundo semestre.
O que são pautas-bomba no Congresso? São propostas que criam despesas ou obrigações relevantes para o governo, usadas como instrumento de pressão política pelo Legislativo contra o Executivo, especialmente em períodos eleitorais.
Flávio Bolsonaro é candidato à presidência em 2026? Senador pelo Rio de Janeiro e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, Flávio foi lançado candidato pelo pai por carta em dezembro de 2025. O aceno de Malafaia neste domingo reforça sua candidatura como possível nome da direita para o pleito.
- oglobo.globo.com — https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/05/03/derrotas-no-congresso-estremecem-base-de-lula-para-tentativa-de-reeleicao-e-testam-relacao-entre-poderes.ghtml
- infomoney.com.br — https://www.infomoney.com.br/politica/situacao-economica-e-boa-mas-percepcao-da-sociedade-nao-e-diz-lula/
- cartacapital.com.br — https://www.cartacapital.com.br/politica/malafaia-acena-apoio-a-candidatura-de-flavio-bolsonaro-em-culto-no-rio/
- metropoles.com — https://www.metropoles.com/brasil/lula-mantem-relacao-turbulenta-com-congresso-desde-volta-ao-planalto