Para 70% dos brasileiros, preços subiram em abril: o paradoxo de Lula
Com PIB crescendo e desemprego baixo, o governo Lula enfrenta rejeição movida pela inflação nos alimentos e combustíveis às vésperas das eleições de 2026.
Com PIB crescendo e desemprego baixo, o governo Lula enfrenta rejeição movida pela inflação nos alimentos e combustíveis às vésperas das eleições de 2026.
Sete em cada dez brasileiros afirmam ter sentido alta nos preços em abril, com impacto mais intenso entre os mais pobres. O dado, de pesquisa Genial/Quaest divulgada em 15 de abril, representa um salto de 14 pontos percentuais em relação a março. O paradoxo é imediato: o mesmo período em que o governo registra crescimento do PIB e desemprego em queda é aquele em que o eleitor sente o bolso mais apertado.
O próprio presidente reconheceu a contradição em março, durante ato político em São Bernardo do Campo. Em evento de pré-candidatura de Fernando Haddad, Lula afirmou que a situação econômica é boa, mas que a percepção da sociedade ainda não acompanhou essa melhora, conforme registrado pelo InfoMoney. Raramente um presidente resume tão precisamente o próprio problema eleitoral.
Pesquisa Quaest de 10 de março já mostrava o tamanho do desgaste: 46% dos brasileiros percebem piora na economia e 43% avaliam negativamente a condução do governo Lula 3. Números que não combinam com um país que, nos indicadores formais, cresce.
O combustível como pivô
A guerra no Irã elevou o preço do petróleo e chegou diretamente ao posto de gasolina. O governo tentou conter o repasse por meio de subsídios, mas estados resistiram a abrir mão de parte da arrecadação do ICMS, conforme registra o InfoMoney. Lula ainda acusou distribuidoras de ampliar o repasse ao etanol, produto sem ligação direta com o conflito no Oriente Médio.
Mesmo que a guerra arrefeça, o alívio nos preços não seria imediato, avalia análise da CNN Brasil. Inflação no consumo essencial não é questão de narrativa: ela aparece na gôndola do mercado, no botijão de gás e no litro de gasolina. A percepção e a realidade, nesse ponto, coincidem.
O peso de governar
Quem ocupa o Palácio do Planalto herda a culpa pelo custo de vida. Nos mandatos entre 2003 e 2010, o ciclo favorável de commodities e a expansão do crédito permitiram que crescimento econômico e melhora de renda andassem no mesmo ritmo. No governo Lula 3, o ambiente é estruturalmente mais difícil: juros altos, pressão fiscal crescente e um choque externo que chegou antes do calendário eleitoral.
A CNN Brasil lembra o axioma eleitoral clássico dos Estados Unidos, “é a economia, estúpido”, para explicar que nenhum discurso sobre crescimento supera a experiência concreta do consumidor no caixa do supermercado. Mau humor econômico persistente contamina a avaliação geral do governo, independentemente do que registram os índices de emprego.
A janela até outubro
Com o primeiro turno em outubro de 2026, o governo Lula 2025 tem prazo curto para reverter a percepção. Medidas como o Desenrola 2.0, previsto para ser anunciado após viagem presidencial à Espanha, podem ajudar a aliviar o endividamento das famílias. Dificilmente, porém, resolverão a pressão imediata sobre alimentos e combustíveis antes de as urnas abrirem.
A questão que o Planalto precisa responder até lá não é se o PIB cresceu. É se o trabalhador que vai ao mercado na sexta-feira sente que sua vida melhorou. Por ora, os dados de abril dizem que não.
Perguntas frequentes
Por que os preços sobem mesmo com a economia crescendo?
Crescimento do PIB e inflação podem coexistir quando a expansão se concentra em setores que não afetam diretamente o consumo cotidiano. A alta do petróleo puxada pelo conflito no Irã, por exemplo, pressiona combustíveis e alimentos independentemente do desempenho geral da economia.
O governo tem como reduzir o preço dos combustíveis?
Subsídios federais são uma opção, mas exigem negociação com estados sobre o ICMS e têm custo fiscal direto. Com juros elevados, ampliar subsídios aumenta o déficit e pode pressionar a inflação no médio prazo, criando um problema para tentar resolver outro.
O que os dados da Quaest de março indicam para 2026?
Em pesquisa divulgada em 10 de março, 46% dos brasileiros percebiam piora na economia e 43% avaliavam negativamente a condução do governo. São números que o Planalto precisará reverter para competir com chances reais em outubro.
O que pode mudar o cenário antes das eleições?
Uma trégua no conflito no Irã reduziria a pressão sobre o petróleo e, com defasagem, chegaria ao consumidor. Medidas de renegociação de dívidas também podem liberar renda. O problema é o prazo: alívio real leva meses para se traduzir em sensação de melhora no bolso.
- cnnbrasil.com.br — https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/thais-heredia/economia/analise-lula-tera-que-lutar-contra-economia-para-vencer-eleicao/
- infomoney.com.br — https://www.infomoney.com.br/politica/situacao-economica-e-boa-mas-percepcao-da-sociedade-nao-e-diz-lula/
- seculodiario.com.br — https://www.seculodiario.com.br/politica/psol-alinha-16-pre-candidados-para-as-chapas-eleitorais-de-2026/