Déficit primário fecha março em R$ 80,6 bi, quase seis vezes o de 2025
Banco Central confirma déficit primário de R$ 80,6 bi em março de 2026; em 12 meses, rombo alcança 1,06% do PIB e terceiro mandato Lula caminha para recorde histórico.
Banco Central confirma déficit primário de R$ 80,6 bi em março de 2026; em 12 meses, rombo alcança 1,06% do PIB e terceiro mandato Lula caminha para recorde histórico.
O Banco Central divulgou na quinta-feira que o setor público registrou déficit primário de R$ 80,676 bilhões em março. Para ter a dimensão do salto: em março de 2025, o rombo havia sido de R$ 13,588 bilhões. A diferença é de quase seis vezes em um único ano.
Dentro do resultado, o governo central concentrou a maior fatia: R$ 74,813 bilhões. Estados e municípios acrescentaram R$ 5,394 bilhões, enquanto as estatais federais responderam por outros R$ 469 milhões ao saldo negativo, conforme Valor Investe.
Daniel Leal, secretário do Tesouro Nacional, apresentou justificativa técnica: o pagamento de cerca de R$ 68 bilhões em precatórios, feito em julho de 2025, foi antecipado para março deste ano. A mudança de calendário distorce a comparação mensal, mas não altera a trajetória do acumulado.
O peso acumulado
Nos doze meses encerrados em março, o déficit primário alcançou R$ 137,107 bilhões, equivalente a 1,06% do Produto Interno Bruto. Em fevereiro, essa mesma proporção estava em 0,41% do PIB. A piora em apenas um mês é expressiva e reflete tanto o ajuste de calendário dos precatórios quanto a pressão de gastos que acompanha o governo Lula 3 desde o início.
Mais preocupante do que qualquer resultado mensal isolado é a projeção para o mandato completo. Segundo o Poder360, estimativas do mercado financeiro apontam que o terceiro mandato deve encerrar com o maior déficit nominal médio da história do país: 8,54% do PIB entre 2023 e 2026. O recorde anterior pertencia ao ciclo Dilma-Temer, entre 2015 e 2018, com 8,48% do PIB. Para que esse recorde não se confirme, o déficit nominal de 2026 teria que ficar abaixo de 8,24% do PIB. O mercado não projeta esse desempenho.
Recordista também deve ser o custo da dívida. O gasto médio com juros no terceiro mandato deve alcançar 7,64% do PIB, superando inclusive o primeiro mandato de Lula, entre 2003 e 2006, quando essa despesa ficou em 7,25% do PIB. Juros elevados retroalimentam o déficit: quanto maior o custo de financiamento, menor o espaço para equilibrar as contas sem cortes nas despesas primárias.
Entre o discurso e os dados
O arcabouço fiscal foi aprovado com a promessa de zerar o déficit primário. Cumprir essa meta sinalizaria ao mercado que o Brasil consegue equilibrar receita e despesa, reduzindo o prêmio de risco exigido por investidores e, com isso, aliviando câmbio e custo do crédito para empresas e famílias. O resultado de março, mesmo considerando o fator precatório, reforça a percepção de que a trajetória está distante do equilíbrio prometido.
Em março, o presidente Lula afirmou que a situação econômica é boa, mas a percepção da sociedade ainda não acompanha, conforme registrou o InfoMoney. As pesquisas contam outra história: 46% dos brasileiros avaliam que a economia piorou, e 43% reprovam a condução econômica do governo, segundo levantamento Quaest de março. Diagnósticos que atribuem o problema à percepção raramente resolvem o problema real.
Governos do PT já operaram com desequilíbrios fiscais antes. A gestão Dilma ficou marcada pelas pedaladas fiscais e pela contabilidade criativa que mascarou déficits crescentes até a recessão se instalar. Como IstoÉ já documentou, parte dos formuladores dessas políticas segue influente nas decisões atuais. Não é acusação: é dado histórico que o mercado já precificou no risco Brasil.
O próximo teste
O governo ainda pode argumentar que o resultado anual ficará dentro de parâmetros defensáveis, dado o impacto pontual dos precatórios. O problema é que as projeções para 2026 não indicam reversão. Se a trajetória se confirmar, o terceiro mandato de Lula entrará para a história pelo recorde errado. A questão que o contribuinte precisa ver respondida é direta: quais despesas o governo está disposto a cortar para mudar esse rumo?
Perguntas frequentes
O que é déficit primário? É o resultado das contas públicas antes do pagamento de juros da dívida. Quando as despesas superam as receitas nesse critério, o saldo é negativo.
Por que o déficit de março de 2026 foi tão alto comparado a 2025? O governo antecipou para março o pagamento de cerca de R$ 68 bilhões em precatórios que, em 2025, foram quitados em julho. A mudança de calendário inflou o resultado negativo do mês.
O que são precatórios? São débitos públicos reconhecidos por decisões judiciais transitadas em julgado. O governo é obrigado a honrá-los, mas tem margem para definir o calendário de pagamento ao longo do exercício fiscal.
O que o arcabouço fiscal prometia para as contas públicas? O mecanismo aprovado no início do governo Lula previa zerar o déficit primário. Cumprir essa meta reduziria o risco percebido pelos investidores, com efeitos positivos sobre câmbio e custo do crédito.
- valorinveste.globo.com — https://valorinveste.globo.com/mercados/brasil-e-politica/noticia/2026/04/30/setor-publico-consolidado-tem-deficit-primario-de-r-80676-bilhoes-em-marco.ghtml
- istoe.com.br — https://istoe.com.br/governo-lula-nao-pode-ficar-imune-a-criticas-e-sinais-na-economia-sao-pessimos
- jornalopcao.com.br — https://www.jornalopcao.com.br/editorial/governo-lula-e-melhor-do-que-dizem-seus-criticos-e-pior-do-que-acreditam-os-petistas-620109/
- cnnbrasil.com.br — https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/lula-critica-projecoes-do-mercado-e-volta-a-prever-alta-do-pib-de-38-em-2024/
- infomoney.com.br — https://www.infomoney.com.br/politica/situacao-economica-e-boa-mas-percepcao-da-sociedade-nao-e-diz-lula/
- poder360.com.br — https://www.poder360.com.br/poder-economia/3o-mandato-de-lula-tera-o-maior-rombo-fiscal-medio-da-historia/