FMI: Brasil fecha 2025 com déficit nominal de 8,1% do PIB
Monitor Fiscal do FMI mostra Brasil com desequilíbrio fiscal crescente em 2025, enquanto Prisma Fiscal traz leve alívio nas projeções primárias para 2026.
Monitor Fiscal do FMI mostra Brasil com desequilíbrio fiscal crescente em 2025, enquanto Prisma Fiscal traz leve alívio nas projeções primárias para 2026.
O déficit nominal do Brasil saltou de 6,2% para 8,1% do PIB em 2025, segundo o Monitor Fiscal do Fundo Monetário Internacional divulgado nesta quarta-feira. Para 2026, o Fundo projeta uma leve redução, para 7,7%, mas o país seguirá com folga acima dos emergentes, que rodam entre 5,5% e 6% do PIB.
Esse salto ocorre num ambiente global já marcado por desequilíbrios fiscais, o que torna a comparação ainda mais desfavorável. Segundo O Globo, o FMI projeta que o déficit nominal mundial suba para 5,2% do PIB em 2026. Num cenário em que quase todos estão gastando além do razoável, o Brasil ainda assim consegue se destacar negativamente.
A reação do mercado
Nem todo o noticiário desta quarta-feira foi sombrio. O Valor Econômico divulgou o Prisma Fiscal de abril com uma melhora: a mediana das estimativas para o déficit primário de 2026 caiu de R$ 65,9 bilhões para R$ 59 bilhões. Quase R$ 7 bilhões de ajuste positivo em um único mês.
O alívio é real, mas parcial. A meta do governo é superávit de R$ 34,3 bilhões, com tolerância que admite déficit zero. A projeção de mercado ainda está longe desse piso. A IstoÉ Dinheiro lembra que, para tentar fechar a conta, o governo aprovou no fim de 2025 cortes lineares em benefícios tributários e ampliou a tributação sobre apostas, fintechs e juros sobre capital próprio.
O quadro da dívida
A dívida bruta do governo deve encerrar 2026 em 83,28% do PIB e alcançar 86,6% em 2027, segundo os mesmos dados de mercado. São números que, há uma década, pareceriam fora do aceitável para uma economia emergente. Hoje são tratados como inevitáveis por quase todo o mercado.
O mecanismo que sustenta esse crescimento é direto: dívida alta eleva o risco percebido, que pressiona os juros, que encarecem o serviço da dívida, que ampliam o déficit nominal, que empurram a dívida mais para cima. O Brasil está rodando essa espiral em velocidade superior à dos seus pares.
Há, porém, uma distinção técnica relevante. No resultado primário, medido antes dos juros, o Brasil aparece melhor posicionado entre os emergentes em geral: déficit de 0,4% do PIB em 2025, contra média de 3,9% do grupo. Quando a comparação se restringe à América Latina, porém, o quadro se inverte. A região fechou 2025 com déficit médio de 0,3% do PIB e deve registrar leve superávit em 2026, segundo o FMI.
O discurso e os números
Em março, o presidente Lula declarou que “a situação econômica é boa, mas a percepção da sociedade ainda não é boa”, conforme registrou a InfoMoney. Os dados do FMI sugerem que a percepção negativa da população tem razões concretas, não apenas de comunicação.
O Jornal Opção sintetizou o dilema da gestão como sendo “melhor do que dizem seus críticos e pior do que acreditam os petistas”. A avaliação é justa: há esforço real no Ministério da Fazenda, mas o resultado ainda não fecha. Haddad opera sob pressão política intensa, com despesas obrigatórias crescendo mais rápido que a receita.
Historicamente, o Brasil não equacionou seu problema estrutural de gastos. O teto de gastos, abandonado em 2022, tentava criar uma âncora para isso. O arcabouço fiscal que veio depois é mais flexível, o que na prática significa mais espaço para ser descumprido sem consequências imediatas.
O que vem pela frente
O FMI projeta que o déficit nominal brasileiro recue para 7,7% do PIB em 2026. Seria um avanço, mas o país seguiria acima da média dos emergentes por margem considerável. Para que a trajetória da dívida se estabilize antes de cruzar os 90% do PIB, seria preciso um ajuste primário que nenhuma projeção de mercado atual contempla.
A questão não é se o Brasil precisará de um ajuste fiscal mais severo. É quando e em que condições esse ajuste vai ocorrer: de forma planejada ou forçado por uma crise de confiança.
FAQ
O que é o Monitor Fiscal do FMI?
É um relatório semestral do Fundo Monetário Internacional que avalia as finanças públicas dos países-membros, com déficits, dívidas e projeções. Serve como principal referência internacional para comparar o desempenho fiscal entre nações.
Qual a diferença entre déficit primário e déficit nominal?
O déficit primário mede o resultado das contas públicas antes do pagamento de juros. O nominal inclui esses juros. No Brasil, com taxas elevadas, a diferença é enorme: em 2025, o primário ficou em 0,4% do PIB enquanto o nominal chegou a 8,1%.
Por que a dívida pública crescendo é um problema?
Uma dívida maior exige mais pagamentos de juros, que consomem parcela crescente do orçamento. Quando a dívida cresce mais rápido que a economia, o país perde margem para investimentos e fica mais vulnerável a choques externos que podem abalar a confiança dos credores.
O que é o Prisma Fiscal?
É uma pesquisa mensal do Ministério da Fazenda que compila estimativas de bancos, consultorias e gestoras sobre os principais indicadores fiscais do país. Funciona como termômetro do que o mercado financeiro espera para as contas públicas brasileiras.
- oglobo.globo.com — https://oglobo.globo.com/economia/fabio-graner/post/2026/04/expansionismo-fiscal-e-geral-mas-brasil-nao-esta-bem-na-foto.ghtml
- jornalopcao.com.br — https://www.jornalopcao.com.br/editorial/governo-lula-e-melhor-do-que-dizem-seus-criticos-e-pior-do-que-acreditam-os-petistas-620109/
- infomoney.com.br — https://www.infomoney.com.br/politica/situacao-economica-e-boa-mas-percepcao-da-sociedade-nao-e-diz-lula/
- cnnbrasil.com.br — https://www.cnnbrasil.com.br/politica/veja-os-5-fatores-que-levaram-o-governo-lula-a-pior-aprovacao/
- valor.globo.com — https://valor.globo.com/brasil/noticia/2026/04/15/mercado-melhora-estimativa-de-deficit-primario-do-governo-federal-para-r-694-bi-aponta-prisma-fiscal.ghtml
- istoedinheiro.com.br — https://istoedinheiro.com.br/projecao-de-deficit-primario-de-2026-passa-de-r-65959-bi-para-r-59019-bi-no-prisma-fiscal