STF derruba lei de SC que proibia cotas em universidades
Por unanimidade, o STF invalidou lei catarinense que vetava cotas raciais; Gilmar Mendes apontou vícios de mérito e falha procedimental na Alesc.
Por unanimidade, o STF invalidou lei catarinense que vetava cotas raciais; Gilmar Mendes apontou vícios de mérito e falha procedimental na Alesc.
O Supremo Tribunal Federal derrubou, por unanimidade, a lei catarinense que proibia cotas étnico-raciais em universidades estaduais que recebessem verbas públicas. O placar foi construído em dois dias: na quinta-feira (16/4), sete ministros formaram maioria; na sexta-feira (17/4), os demais seguiram o mesmo caminho, sem nenhuma dissidência.
A lei havia sido aprovada em dezembro de 2025 pela Assembleia Legislativa de Santa Catarina. De autoria do deputado estadual Alex Brasil (PL), o texto vedava o ingresso por cotas em instituições que recebessem verbas estaduais, previa multa de R$ 100 mil por edital publicado em desacordo com a norma e ameaçava cortar repasses às universidades que não cumprissem a regra. Não era apenas uma declaração de princípios: tinha dentes financeiros.
O relator, ministro Gilmar Mendes, votou pela inconstitucionalidade. Segundo o Correio Braziliense, o decano do STF argumentou que a jurisprudência sobre o tema já está consolidada: cotas raciais não violam o princípio da isonomia, mas o concretizam ao tratar de forma diferente realidades materialmente distintas.
A tramitação legislativa sob escrutínio
Gilmar apontou ainda uma falha de rito. O projeto teria sido aprovado “a toque de caixa” pela Alesc, sem audiências com representantes da sociedade civil nem com as próprias instituições de ensino diretamente afetadas. Para o Supremo, esse vício procedimental agravou o problema de mérito.
A tese de que cotas são inconstitucionais já foi derrotada antes. O STF consolidou o entendimento favorável às políticas afirmativas em 2012, quando validou o sistema de reserva de vagas na Universidade de Brasília. A lei catarinense tentou abrir uma brecha ao limitar a proibição ao âmbito estadual; a estratégia não convenceu nenhum ministro.
O momento é delicado para o STF. A corte atravessa queda de credibilidade junto à população, tensão que o próprio Correio Braziliense registrou ao cobrir a decisão. A unanimidade pode ser lida como sinal de coesão institucional, mas também alimenta o debate sobre se há espaço, dentro do Supremo, para divergências genuínas em temas tão polarizados politicamente.
O contexto político mais amplo
Santa Catarina é um dos estados onde a oposição ao governo federal tem base eleitoral mais robusta. A aprovação de uma lei anticotas pela Alesc refletia pressão política real, vinda de um eleitorado que questiona as políticas afirmativas por razões que vão da meritocracia ao custo administrativo das instituições. Tratar esse movimento como mero populismo seria um erro analítico; ignorar os vícios procedimentais da lei, também.
O governo Lula, que tem nas políticas de inclusão um dos eixos retóricos do terceiro mandato, sai fortalecido simbolicamente pela decisão. O problema é que essa vitória chega em momento de desgaste severo. De acordo com a CNN Brasil, a aprovação presidencial chegou a 24% em fevereiro de 2025. Em março de 2026, pesquisa Quaest mostrou que 43% dos brasileiros avaliavam negativamente a condução do governo Lula 3, conforme a InfoMoney. Uma vitória jurídica não apaga essa percepção.
Há análises que apontam para essa ambiguidade persistente, entre avanços pontuais e dificuldades de comunicação que corroem a imagem do governo, como discutiu o Jornal Opção ao examinar o desempenho do PT no poder.
O que muda a partir de agora
Declarar inconstitucional não equivale a ganhar o argumento. A população brasileira permanece dividida sobre cotas, e a lei catarinense canalizou um sentimento real de parte do eleitorado. Para as universidades estaduais de Santa Catarina, a decisão abre caminho imediato: editais com cotas podem ser publicados sem risco de sanção financeira, e o impacto concreto deve aparecer nos processos seletivos do segundo semestre de 2026.
A Alesc precisará decidir se insiste na agenda ou recua. O histórico mostra que embates entre legislativos estaduais e STF costumam ter apenas um desfecho. A questão é saber por quanto tempo essa tensão vai se arrastar antes de o debate migrar para onde pode ser travado com mais eficácia: nas urnas.
Perguntas frequentes
O que era a lei de cotas de Santa Catarina?
Lei aprovada em dezembro de 2025 pela Alesc que proibia universidades estaduais que recebessem recursos públicos de adotar cotas étnico-raciais. Previa multa de R$ 100 mil por edital que descumprisse a norma e corte de repasses às instituições infratoras.
Por que o STF considerou a lei inconstitucional?
O relator Gilmar Mendes argumentou que há jurisprudência consolidada favorável às cotas e que a lei foi aprovada sem audiências com a sociedade civil ou as instituições afetadas. Todos os ministros acompanharam o voto.
A decisão afeta outros estados que tentem legislar contra cotas?
Sim. A decisão reforça o entendimento federal sobre políticas afirmativas. Estados que tentem proibir cotas em instituições com recursos públicos enfrentarão o mesmo obstáculo constitucional já sedimentado pelo STF.
Quando as universidades catarinenses poderão usar cotas nos editais?
Com a lei derrubada, não há mais impedimento legal estadual. O efeito prático mais imediato deve aparecer nos editais para o segundo semestre de 2026.
- correiobraziliense.com.br — https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2026/04/7401047-por-unanimidade-stf-derruba-proibicao-de-cotas-em-universidades-de-sc.html
- jornalopcao.com.br — https://www.jornalopcao.com.br/editorial/governo-lula-e-melhor-do-que-dizem-seus-criticos-e-pior-do-que-acreditam-os-petistas-620109/
- infomoney.com.br — https://www.infomoney.com.br/politica/situacao-economica-e-boa-mas-percepcao-da-sociedade-nao-e-diz-lula/
- cnnbrasil.com.br — https://www.cnnbrasil.com.br/politica/veja-os-5-fatores-que-levaram-o-governo-lula-a-pior-aprovacao/