Lula e Alcolumbre retomam diálogo após meses de afastamento
A reaproximação entre Lula e o presidente do Senado revela o custo político da governabilidade num cenário de aprovação popular em declínio.
A reaproximação entre Lula e o presidente do Senado revela o custo político da governabilidade num cenário de aprovação popular em declínio.
Na última terça-feira, enquanto José Guimarães tomava posse como ministro das Relações Institucionais, o presidente Lula e o senador Davi Alcolumbre trocaram cochichos num canto da cerimônia. O gesto foi discreto, mas petistas que acompanharam a crise entre os dois leram o sinal: o congelamento havia terminado.
O distanciamento vinha de meses. Lula anunciou publicamente o nome do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no STF, mas demorou mais de quatro meses para enviar a mensagem formal ao Senado, só o fazendo no dia 1º de abril. O Planalto temia que Alcolumbre, contrariado com a demora, travasse o processo indefinidamente.
A trégua e seus custos
Alcolumbre deu início à tramitação e agendou a sabatina de Messias para 28 de abril. O gesto, porém, teve contrapartida. No mesmo dia em que destravou a nomeação, o senador marcou para 30 de abril uma sessão do Congresso para votar o veto à redução de penas dos condenados pela trama golpista de 2022, segundo o Bem Paraná. A tendência é de que o veto seja derrubado, o que beneficia réus ligados ao bolsonarismo.
A lógica é de equilíbrio político clássico: Alcolumbre acelera processo que interessa ao governo e entrega à oposição uma vitória simbólica relevante. É o preço da governabilidade.
Na posse de Guimarães, o senador foi além dos cochichos. Em seu discurso, exaltou o diálogo, a “boa política” e fez elogios à ex-ministra Gleisi Hoffmann, que deixou a Secretaria de Relações Institucionais para disputar uma vaga no Senado. Quem conhece a dinâmica entre os dois líderes aponta que o problema central foi a ausência de interlocução frequente: entre o fim de 2025 e o início de 2026, o canal direto secou, e pequenas divergências viraram arestas.
O pano de fundo
A reaproximação ocorre numa semana em que a tensão entre o STF e o Legislativo voltou a escalar. No TSE, o julgamento sobre a inelegibilidade de Bolsonaro foi suspenso após o ministro-relator Benedito Gonçalves votar pela inelegibilidade do ex-presidente até 2030, conforme análise do Globoplay. O ambiente político está carregado, e Lula precisa do Senado funcionando.
O cenário econômico soma pressão. Em março, o presidente reconheceu, em ato político em São Bernardo do Campo, que a economia apresenta bons indicadores mas que a percepção pública sobre o tema ainda é negativa, conforme reportou o InfoMoney. Pesquisa Quaest do mesmo mês apontou que 46% dos brasileiros enxergam piora econômica e 43% avaliam negativamente a gestão do presidente.
No mercado financeiro, o retrato do governo Lula 3 é ainda mais severo. Levantamento da Genial/Quaest publicado pela CNN Brasil indicou que 90% dos agentes econômicos avaliam negativamente o governo, com apenas 3% de aprovação. A deterioração se acelerou após novembro de 2024, quando o pacote de contenção de gastos foi anunciado em paralelo à proposta de isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil, combinação que analistas consideraram contraditória.
O que isso significa
A reaproximação com Alcolumbre é, antes de tudo, uma necessidade operacional. Com aprovação popular em queda e o mercado majoritariamente desconfiante, Lula não pode se dar ao luxo de ter também o Senado travado. A pauta legislativa do segundo semestre, com votações de impacto fiscal direto, depende de uma relação mínima com o Congresso.
Há um padrão que se repete nas três passagens de Lula pela presidência. De 2003 a 2010, a governabilidade custava acordos, mas a base aliada era mais coesa e o capital político do presidente era maior. No governo Lula 3, cada acordo tem custo mais alto, a fragmentação é maior e a margem de manobra é menor.
O que vem pela frente
A sabatina de Messias no dia 28 será o primeiro teste real da trégua. Se transcorrer sem turbulência, o sinal de normalização se consolida. Se a sessão do dia 30 sobre as penas dos condenados pelo golpe gerar conflito público com o Planalto, a trégua pode ser mais frágil do que os cochichos de terça-feira sugeriram.
Fica a pergunta: qual será o preço do próximo acordo?
Perguntas frequentes
Por que Lula e Alcolumbre se afastaram? A demora de mais de quatro meses para enviar formalmente ao Senado a indicação de Jorge Messias para o STF gerou desconforto entre os dois. Alcolumbre se sentiu ignorado no processo de escolha.
O que é a sabatina de Messias? É a audiência em que o indicado ao STF responde a senadores antes da votação de confirmação. Está marcada para 28 de abril no Senado Federal.
Por que o mercado financeiro reprova o governo Lula? Pesquisa Genial/Quaest mostrou que 90% dos agentes econômicos avaliam negativamente o governo, principalmente pela percepção de deterioração fiscal e pela comunicação contraditória sobre contenção de gastos e isenções tributárias.
O que é o veto à redução de penas dos condenados pelo golpe? O Executivo vetou uma mudança legal que reduziria as penas de pessoas condenadas por participação na trama golpista de 2022. O Congresso pode derrubar esse veto, e a sessão está marcada para 30 de abril.
- bemparana.com.br — https://www.bemparana.com.br/noticias/politica/lula-e-alcolumbre-se-reaproximam-e-congresso-sinaliza-contencao-de-atritos-com-governo/
- cnnbrasil.com.br — https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/avaliacao-do-governo-lula-e-negativa-para-90-do-mercado-diz-quaest/
- jornalopcao.com.br — https://www.jornalopcao.com.br/editorial/governo-lula-e-melhor-do-que-dizem-seus-criticos-e-pior-do-que-acreditam-os-petistas-620109/
- infomoney.com.br — https://www.infomoney.com.br/politica/situacao-economica-e-boa-mas-percepcao-da-sociedade-nao-e-diz-lula/
- estadao.com.br — https://www.estadao.com.br/economia/mercado-financeiro-reacao-lula-responsabilidade-fiscal-npre/?srsltid=AfmBOoqTVClrruoBfe_sCHKfGEuz2W0N1HBdJ1SJoagYHKi01L0g_ZUa
- globoplay.globo.com — https://globoplay.globo.com/v/11736458/