Para Lula, responsabilidade fiscal e gastos são rivais
Mercado financeiro repudia visão de Lula que opõe responsabilidade fiscal a gastos sociais. Saiba por que 90% dos agentes reprovam o governo Lula 3.
Mercado financeiro repudia visão de Lula que opõe responsabilidade fiscal a gastos sociais. Saiba por que 90% dos agentes reprovam o governo Lula 3.
Lula declarou, em março de 2026, que a situação econômica do Brasil é boa e que o problema está na percepção da sociedade. A frase foi dita num ato de pré-candidatura de Fernando Haddad ao governo de São Paulo, no ABC paulista. Para 90% dos agentes do mercado financeiro, o diagnóstico presidencial está invertido.
A fissura entre o discurso e os fundamentos não é nova. Quando Lula, ainda presidente eleito em 2022, criticou a “tal estabilidade fiscal” e defendeu a ampliação de gastos em evento no Rio de Janeiro, a Bolsa caiu 3,35% e o dólar fechou em R$ 5,39, alta de 4,14% em um único pregão. O episódio, detalhado pelo Estadão, ficou como um dos primeiros sinais de que o governo Lula 3 chegaria ao mercado com um problema estrutural de credibilidade.
Tratar gastos sociais e equilíbrio fiscal como objetivos opostos é precisamente o que alarma economistas e investidores. Para eles, a confusão não é semântica, é política.
O que o mercado ouviu
Analistas consultados pelo Estadão na época indicaram que Lula ainda operava em modo de campanha, reforçando promessas sem apresentar definições concretas sobre a condução da política econômica. A ausência de um nome confirmado para o Ministério da Fazenda amplificava a incerteza. Leandro Petrokas, da Quantzed, sintetizou o sentimento dos pregões: o mercado havia digerido a possibilidade de uma vitória petista esperando que o governo se parecesse com o primeiro mandato, quando crescimento e controle da inflação coexistiram. O que veio foi diferente.
A economista Elena Landau escreveu, em coluna no Estadão, que sem responsabilidade fiscal os mais pobres são os primeiros a sentir o impacto. O real perde valor, os juros sobem, a inflação corrói o salário real. Sua conclusão foi direta: quem acha que só a Faria Lima sai perdendo está enganado.
A percepção virou dado
Três anos depois, a percepção do mercado não melhorou. Pesquisa Genial/Quaest publicada pela CNN Brasil em dezembro de 2024 mostrou que 90% dos agentes econômicos avaliavam negativamente o governo Lula 2025. Apenas 3% tinham visão positiva. O índice havia recuado no meio de 2023, quando o arcabouço fiscal e a reforma tributária avançavam no Congresso, mas voltou ao pico com a deterioração das contas públicas.
O pacote de contenção de gastos anunciado em novembro de 2024, com cortes previstos de mais de R$ 70 bilhões entre 2025 e 2026, foi lançado no mesmo comunicado que a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. O mercado avaliou a combinação como contraditória: corta-se de um lado, desonera-se do outro, e o efeito fiscal líquido ficou nebuloso.
Entre 2003 e 2010, o governo Lula 1 conseguiu compatibilizar expansão social com disciplina fiscal. O superávit primário era meta inegociável, e a dívida pública como proporção do PIB recuou durante boa parte do período. O governo Lula 3 opera numa configuração diferente: o arcabouço fiscal tem metas mais flexíveis, o teto de gastos foi abandonado, e o próprio presidente trata o controle de despesas como obstáculo ao desenvolvimento, e não como condição dele.
O risco real
Em março de 2026, segundo a InfoMoney, 46% dos brasileiros declaravam perceber piora na situação econômica e 43% avaliavam negativamente a gestão do presidente. O Palácio do Planalto atribui parte do mal-estar ao aumento dos combustíveis, reflexo da guerra no Irã, e acusa distribuidoras de praticar o que Lula chamou de “falsa inflação”. Mas o Jornal Opção resume bem o impasse: o governo é mais complexo do que seus críticos admitem, mas também mais problemático do que seus defensores reconhecem.
Essa desconfiança, registrada antes mesmo da alta do petróleo provocada pela guerra no Irã, aponta não para a conjuntura externa, mas para a leitura que o governo faz da relação entre gasto público e estabilidade econômica.
A questão que fica não é de comunicação, como o presidente parece acreditar. É se o governo conseguirá apresentar, antes do ciclo eleitoral, um plano crível que reconcilie a expansão de despesas com uma trajetória sustentável da dívida, ou se chegará a 2026 ainda convencido de que o problema está apenas na percepção.
Perguntas frequentes
Q: Por que o mercado financeiro reage mal quando Lula fala em gastos públicos? A: Porque investidores avaliam que sem equilíbrio fiscal a inflação sobe, os juros aumentam e o real se desvaloriza, prejudicando a economia como um todo, não apenas o setor financeiro.
Q: O que foi o pacote fiscal anunciado em novembro de 2024? A: Foi um conjunto de medidas de contenção de gastos com economia prevista de mais de R$ 70 bilhões entre 2025 e 2026, lançado junto com a isenção de IR para rendas até R$ 5 mil, combinação avaliada pelo mercado como contraditória.
Q: O governo Lula já teve boa avaliação do mercado financeiro? A: Sim. O melhor momento da série Quaest/Genial foi em meados de 2023, quando o arcabouço fiscal e a reforma tributária avançavam no Congresso. A aprovação despencou com a deterioração das contas públicas no segundo semestre.
Q: Por que os brasileiros percebem piora econômica se o PIB cresceu? A: Crescimento do PIB não garante melhora imediata no poder de compra. Inflação elevada, juros altos e custo de vida crescente afetam o cotidiano de forma mais direta do que os índices macroeconômicos agregados.
- estadao.com.br — https://www.estadao.com.br/economia/mercado-financeiro-reacao-lula-responsabilidade-fiscal-npre/?srsltid=AfmBOoocBhbFVXJNlk7zrhkQEx0s4ECgwNtStaLofgp24DsDflkmHOGl
- cnnbrasil.com.br — https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/avaliacao-do-governo-lula-e-negativa-para-90-do-mercado-diz-quaest/
- jornalopcao.com.br — https://www.jornalopcao.com.br/editorial/governo-lula-e-melhor-do-que-dizem-seus-criticos-e-pior-do-que-acreditam-os-petistas-620109/
- infomoney.com.br — https://www.infomoney.com.br/politica/situacao-economica-e-boa-mas-percepcao-da-sociedade-nao-e-diz-lula/
- globoplay.globo.com — https://globoplay.globo.com/v/11736458/
- metropoles.com — https://www.metropoles.com/colunas/milena-teixeira/centrao-aposta-que-pl-de-lula-sobre-6x1-vai-minguar-saiba-por-que