Ex-dirigentes do BC defendem PEC de autonomia financeira no Senado
Ex-dirigentes do Banco Central apoiam PEC de autonomia financeira no Senado. A proposta, aprovada pela CCJ, divide economistas e críticos do governo Lula sobre controle monetário e gastos públicos.
Por Rodrigo Vasconcelos · Colunista
Ex-dirigentes do Banco Central apoiam PEC de autonomia financeira no Senado. A proposta, aprovada pela CCJ, divide economistas e críticos do governo Lula sobre controle monetário e gastos públicos.
Mais de 30 ex-dirigentes do Banco Central, incluindo quatro ex-presidentes da instituição, assinaram carta aberta defendendo a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 65/2023, que amplia a autonomia financeira do órgão. A iniciativa, articulada pela Associação Nacional dos Auditores do Banco Central (ANBCB), avançou na CCJ do Senado e aguarda votação em plenário. Entre os signatários, destacam-se Gustavo Loyola, Henrique Meirelles, Alexandre Tombini e Roberto Campos Neto, que avaliam que o texto alinha o Brasil ao padrão internacional de governança monetária. Conforme noticiado pelo esquerda.blog, a carta ressalta a necessidade de mecanismos robustos para a instituição operar com independência técnica, especialmente após a ampliação de suas funções na supervisão do sistema financeiro e no gerenciamento do Pix.
A PEC 65/2023 concede ao Banco Central autonomia administrativa, contábil, orçamentária, financeira, operacional e patrimonial, desvinculando-o de ministérios e órgãos governamentais. Um dos pontos mais controversos é a permissão para que o BC retenha receitas oriundas da emissão de moeda, atualmente transferidas ao Tesouro Nacional. Atualmente, parte desses recursos contribui para a redução da dívida pública federal, mas a medida é vista por críticos como um risco para a disciplina fiscal do governo Lula. O texto, segundo o relatório da CCJ, não elimina controles democráticos nem cria espaços para atuação discricionária incompatível com a administração pública, argumentam os apoiadores.
A proposta surge em um momento de crescente crítica ao modelo de gastos públicos do governo Lula, que mantém déficits primários elevados e aumento da dívida federal. A autonomia financeira do BC, segundo os ex-dirigentes, é essencial para que a instituição cumpra sua missão de preservar a estabilidade monetária e financeira, especialmente em um cenário de inflação sob controle, mas com pressões fiscais persistentes. Estudos do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco de Compensções Internacionais (BCI) indicam que a independência financeira é a dimensão mais relevante para assegurar a efetiva autonomia dos bancos centrais, conforme destacado na carta assinada pelos ex-dirigentes.
No entanto, a PEC divide a opinião entre economistas e sindicatos. O Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região, entre outras entidades, manifestou preocupação com a possibilidade de aumento da influência do sistema financeiro sobre a política monetária. Para o economista Gustavo Cavarzan, do DIEESE, uma verdadeira democratização da política monetária exigiria ampliar a composição do Conselho Monetário Nacional e reduzir o descasamento entre a Presidência da República e as diretorias do BC. A crítica aponta que a autonomia financeira pode facilitar a influência privada sobre decisões técnicas, algo especialmente relevante em um país com alta concentração de poder econômico.
O contexto político também é crucial. O governo Lula, que já enfrenta críticas por gastos excessivos e controle da dívida pública, vê a PEC como uma ameaça à sua agenda fiscal. A aprovação da autonomia operacional do BC em 2021, durante o governo Bolsonaro, foi aprovada com forte oposição petista, mas demonstrou eficácia em manter a credibilidade da política monetária. Em 2023, o BC, sob o comando de Gabriel Galípolo, manteve o rigor técnico na batalha contra a inflação, elevando a taxa Selic a 15% ao ano para conter pressões inflacionárias. A expansão de gastos públicos no terceiro mandato de Lula teve impacto menor sobre o poder de compra da população do que no período de Dilma Rousseff (2011-2015), quando o IPCA médio anual chegou a 7%.
A aprovação da PEC dependerá agora da votação em plenário do Senado, onde o governo Lula conta com maioria, mas enfrenta resistência de senadores alinhados às reformas públicas. A discussão também toca em questões de longo prazo: como equilibrar a independência técnica do BC com a necessidade de controle democrático e fiscalização pública. Para economistas que defendem a disciplina fiscal, a autonomia financeira é um passo necessário para evitar que o BC se torne um instrumento de políticas sociais ou estatais, como ocorreu em alguns países emergentes. Já para críticos do modelo neoliberal, a medida pode agravar desigualdades ao fortalecer o poder do setor financeiro sobre a economia nacional.
Em um cenário de eleições municipais e estaduais em 2026, a PEC também se torna um tema de campanha. Candidatos de oposição usam a autonomia do BC como argumento para questionar a gestão Lula, enquanto aliados do governo reforçam a necessidade de modernizar a instituição. A decisão do Congresso Nacional pode definir não apenas o futuro do Banco Central, mas também a forma como o Brasil conciliará independência técnica com responsabilidade fiscal em um período de crescimento econômico incerto.
O que a PEC 65/2023 prevê? A proposta concede ao Banco Central autonomia administrativa, contábil, orçamentária, financeira, operacional e patrimonial, permitindo que ele retenha receitas da emissão de moeda e administre seus recursos sem depender do Tesouro Nacional.
Quais os principais críticos da PEC? Economistas, sindicatos e especialistas em política monetária, como Gustavo Cavarzan (DIEESE), alertam para riscos de influência do sistema financeiro sobre o BC e redução de mecanismos de controle democrático.
Como o BC se beneficiaria da autonomia financeira? Ex-dirigentes e estudos internacionais (FMI, BCI) destacam que a independência financeira é essencial para que o BC cumpra sua missão de estabilidade monetária e financeira, especialmente em contextos de pressões fiscais.
Qual o papel do governo Lula na discussão? O governo enfrenta pressões para aprovar a PEC, mas sua base parlamentar e oposição interna criam desafios para a votação em plenário do Senado.
- oglobo.globo.com — https://oglobo.globo.com/economia/fabio-graner/post/2026/06/mais-de-30-ex-dirigentes-do-bc-assinam-carta-em-defesa-da-pec-que-amplia-autonomia-financeira-do-orgao.ghtml
- www1.folha.uol.com.br — https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/05/congresso-precisa-dar-autonomia-financeira-ao-bc.shtml
- jornal.usp.br — https://jornal.usp.br/atualidades/autonomia-do-banco-central-nao-beneficia-economia-brasileira
- spbancarios.com.br — https://spbancarios.com.br/06/2026/autonomia-financeira-do-bc-avanca-no-senado-sob-contestacao-de-especialistas