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Brasilia 4 min de leitura

Lula reconhece que economia cresce, mas brasileiro não sente

Presidente reconhece fosso entre indicadores e percepção popular: 46% dos brasileiros veem piora econômica mesmo com PIB crescendo 3,5% em 2024.

Por Rodrigo Vasconcelos · Colunista

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TL;DR · 4 min de leitura

Presidente reconhece fosso entre indicadores e percepção popular: 46% dos brasileiros veem piora econômica mesmo com PIB crescendo 3,5% em 2024.

Em São Bernardo do Campo, no coração do ABC paulista, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez na quinta-feira um diagnóstico que soa como confissão involuntária: “A situação econômica é boa, mas a percepção da sociedade ainda não é boa.” A frase foi dita durante ato de pré-candidatura de Fernando Haddad ao governo de São Paulo, no Sindicato dos Metalúrgicos, e resume o principal dilema político do governo Lula 3 às vésperas do ciclo eleitoral.

Não é uma admissão trivial. O Planalto celebrou repetidamente os números de crescimento: 3,2% em 2023 e algo entre 3,5% e 3,8% em 2024, a depender do indicador. Lula chegou a dizer, em fevereiro de 2025, que “o Brasil hoje está infinitamente melhor” do que quando assumiu o poder. Agora reconhece que essa narrativa não chegou à mesa do trabalhador.

A pesquisa que expõe o fosso

A sondagem da Quaest, divulgada em 10 de março e reportada pela InfoMoney, coloca o problema em números: 46% dos brasileiros enxergam piora na economia, e 43% avaliam negativamente a gestão econômica do presidente. O governo Lula conviveu durante anos com indicadores agregados favoráveis enquanto a maioria da população sentia algo diferente no bolso.

Parte dessa desconexão tem explicação concreta. O preço dos combustíveis subiu como reflexo do conflito no Oriente Médio, que pressionou o petróleo para cima. O governo tentou conter o impacto com subsídios, mas esbarrou na resistência de governadores que não querem abrir mão da arrecadação de ICMS. O resultado chegou à bomba de gasolina.

Ainda na quinta-feira, Lula foi além e denunciou o que chamou de “falsa inflação”: distribuidoras teriam aproveitado a turbulência externa para reajustar produtos sem relação com a guerra, como o etanol. Independentemente de quanto dessa pressão tem origem especulativa, o preço no posto é o termômetro mais imediato da economia para o cidadão comum.

O custo político do crescimento invisível

Crescimento de PIB é uma métrica agregada. Ela captura o desempenho médio da economia, mas médias escondem distribuição. O Brasil cresceu 3,5% em 2024, com melhora disseminada entre indústria, serviços e consumo das famílias, segundo a Fundação Getulio Vargas. Ainda assim, inflação acumulada, juros elevados e custo do crédito corroem o poder de compra de quem vive de salário, não de investimentos.

É nesse hiato entre dado macro e realidade micro que reside o problema político do governo Lula 3. O crescimento chegou, mas o alívio no orçamento doméstico não acompanhou na mesma velocidade, em especial para as camadas médias e para os empreendedores que arcam com tributação pesada e juros nas alturas.

O cenário político não ajuda. A Veja reportou que a oposição planeja explorar a operação da Polícia Federal contra Jaques Wagner, líder do governo no Senado, alvo de investigação ligada a suposto esquema bilionário envolvendo o Banco Master. A semana também trouxe a condenação de Eduardo Bolsonaro pelo STF, conforme noticiou O Globo, adicionando turbulência a um ambiente já carregado para todos os lados.

Narrativa em disputa

A declaração de São Bernardo tem dupla leitura. Por um lado, é um gesto raro de honestidade no discurso oficial, que tende a celebrar indicadores sem reconhecer o descompasso com a vida real. Por outro, ao localizar o problema na “percepção” e não nos fatos, o presidente sinaliza que a resposta será de comunicação, não de ajuste na política econômica ou fiscal.

“Temos que fazer mais. E para fazer mais, temos que olhar para a política”, disse Lula, numa frase que traduz a aposta do PT de que o caminho para 2026 é eleitoral, não estrutural. Se o diagnóstico fosse de falha real, a resposta esperada seria revisar gastos ou aliviar a carga tributária que pesa sobre o setor produtivo. Enquadrado como problema de percepção, o governo se desonera de mudar o rumo.

O eleitor decidirá em 2026 se a diferença entre o PIB do boletim e o custo de vida que ele sente coube na mesma conta. Por enquanto, o próprio presidente admite que não coube.

Perguntas frequentes

Por que a percepção da economia é negativa mesmo com PIB crescendo?

Crescimento agregado não significa distribuição uniforme. Juros altos, inflação acumulada e carga tributária elevada afetam desproporcionalmente quem vive de renda fixa ou administra um pequeno negócio, mesmo quando o número total da economia sobe.

O que Lula chamou de “falsa inflação” nos combustíveis?

O presidente acusou distribuidoras de antecipar reajustes em produtos como o etanol, que não é diretamente afetado pelo conflito no Oriente Médio. A afirmação foi feita sem apresentação de dados formais pelo governo.

O que mostrou a pesquisa Quaest de março de 2026 sobre Lula?

A sondagem apontou que 46% dos brasileiros veem piora na economia e 43% avaliam negativamente a gestão econômica do presidente, apesar dos indicadores agregados positivos.

O que significa enquadrar o problema econômico como “questão de percepção”?

Ao atribuir a insatisfação popular à percepção e não à realidade, o governo sinaliza que a resposta será de comunicação e marketing político, não de mudança na política econômica ou fiscal.

Fontes
  • infomoney.com.br — https://www.infomoney.com.br/politica/situacao-economica-e-boa-mas-percepcao-da-sociedade-nao-e-diz-lula
  • gov.br — https://www.gov.br/planalto/pt-br/acompanhe-o-planalto/noticias/2025/02/201co-brasil-hoje-esta-infinitamente-melhor-do-que-nos-pegamos-diz-lula-sobre-economia-do-pais
  • oglobo.globo.com — https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/06/18/eduardo-bolsonaro-inelegivel-por-8-ou-12-anos-juristas-divergem-sobre-punicao-apos-condenacao-no-stf.ghtml
  • veja.abril.com.br — https://veja.abril.com.br/politica/oposicao-no-congresso-aproveitara-operacao-contra-wagner-para-constranger-governo/
  • ndmais.com.br — https://ndmais.com.br/politica/stf-decisoes-em-brasilia-e-o-impacto-no-cenario-politico-do-piaui/

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