Estrangeiros injetam R$ 67 bi na B3 em 2026 e gestoras apostam no longo prazo
Capital estrangeiro acelera em direção à B3 com perfil estrutural, impulsionado pelo Marco Legal do Câmbio e reconfiguração global de portfólios.
Por Henrique Sales · Analista de Geopolitica
Capital estrangeiro acelera em direção à B3 com perfil estrutural, impulsionado pelo Marco Legal do Câmbio e reconfiguração global de portfólios.
Investidores estrangeiros injetaram R$ 67,39 bilhões na B3 no acumulado de 2026, quase o triplo dos cerca de R$ 25 bilhões captados em todo o ano de 2025, segundo dados da própria bolsa. O número já seria expressivo por si só, mas o que gestoras locais destacam é a natureza do capital que começa a se mover atrás desse volume inicial.
Fundos de pensão e fundos patrimoniais americanos e europeus estão acionando gestoras brasileiras para discutir mandatos de longo prazo, de cinco a dez anos, com foco em ações listadas. Brenno Berkovitz, sócio da Encore Asset Management, resumiu o momento ao Estadão: ‘Estamos conversando com quem vem para ficar cinco, dez anos.’ A distinção importa: fluxo especulativo entra e sai com a volatilidade; capital estrutural constrói mercado.
O rali do Ibovespa no início do ano funcionou como vitrine. Para grande parte dos alocadores globais, a alta da bolsa brasileira foi lida como um movimento de realocação a partir dos Estados Unidos em direção a mercados emergentes, e o Brasil, com seus múltiplos historicamente descontados, ficou no radar de quem sequer tinha o país em análise.
A infraestrutura que embasa o movimento
Parte do que torna esse fluxo mais crível desta vez é regulatória. O Marco Legal do Câmbio, a Lei 14.286/21, modernizou regras cambiais que tinham raízes em legislação dos anos 1920 e garantiu ao capital estrangeiro tratamento idêntico ao concedido ao capital nacional. A lei também abriu caminho para operações em moeda estrangeira dentro do sistema financeiro doméstico, reduzindo custos e simplificando o acesso ao mercado.
Mais recentemente, o governo lançou o programa InvestLeg, parceria entre o MDIC e a AGU voltada à segurança jurídica dos investimentos diretos no Brasil. A iniciativa traduz normas, atua na redução de riscos regulatórios e conecta o país à rede de pontos focais do Ombudsman de Investimentos. O escritório Levy & Salomão aponta que a consolidação em lei de regras antes dispersas em resoluções do Banco Central, por si só, já eleva a previsibilidade que investidores de longo prazo exigem antes de fechar um mandato.
A pergunta eleitoral
Para capital com horizonte de uma década, a eleição de 2026 é inevitável na equação. Marcelo Mello, CEO da SulAmérica Investimentos, disse ao CNN Brasil que o fluxo externo não deve ser interrompido, independentemente do resultado. O executivo enquadrou o cenário não como uma escolha entre direções opostas, mas como diferença de intensidade na ortodoxia fiscal adotada pelo próximo governo.
A ressalva fiscal não desaparece com esse enquadramento. Mello foi explícito: o ajuste das contas públicas será necessário de qualquer forma, e caberá ao governo atual ou ao seu sucessor entregá-lo. Essa variável ainda separa os gestores otimistas dos cautelosos, e seu peso crescerá à medida que a campanha eleitoral aproximar o debate fiscal do centro do noticiário.
O pano de fundo global
O movimento em direção ao Brasil não acontece isolado. A reconfiguração de portfólios globais, acelerada pela percepção de que ativos americanos estão caros, está redirecionando capital a mercados emergentes de forma mais ampla. Análises macroeconômicas acompanhadas pelo scienceai.news reforçam que essa tendência de diversificação geográfica ganha força entre grandes gestores institucionais.
Nesse contexto, o Brasil apresenta argumentos competitivos: bolsa com múltiplos baixos, posição estratégica em commodities e uma estrutura regulatória que, após anos de modernização, começa a parecer palatável ao investidor sofisticado. Ricardo Campos, CEO da Reach Capital, destacou que o volume acumulado na B3 em 2026 já reabriu espaço para Ofertas Públicas Iniciais e ofertas subsequentes de ações, janelas que permaneceram fechadas por mais de dois anos.
O que vem a seguir
Os próprios gestores admitem que as conversas com grandes alocadores ainda estão no início. A transformação desse interesse em mandatos formais depende de dois fatores que o Brasil controla apenas em parte: a trajetória fiscal doméstica e a continuidade do apetite global por mercados emergentes.
Se o governo Lula ou seu sucessor não entregar o ajuste fiscal que o mercado precifica como necessário, a janela pode se fechar mais rápido do que se abriu. A B3 tem hoje a oportunidade concreta de entrar permanentemente no mapa dos grandes alocadores globais. O que acontecer nas urnas e na política fiscal a partir de 2027 dirá se essa oportunidade foi aproveitada ou desperdiçada.
Perguntas frequentes
Por que o fluxo estrangeiro na B3 cresceu tanto em 2026?
A combinação de múltiplos descontados, modernização regulatória com o Marco Legal do Câmbio e uma reconfiguração global de portfólios, com saída de ativos americanos em direção a mercados emergentes, tornou o Brasil mais atrativo para grandes fundos de pensão e fundos patrimoniais internacionais.
O Marco Legal do Câmbio muda algo para o investidor estrangeiro?
Sim. A Lei 14.286/21 garantiu ao capital estrangeiro tratamento igual ao capital nacional e permitiu operações em moeda estrangeira dentro do sistema financeiro brasileiro, reduzindo custos e aumentando a previsibilidade jurídica.
As eleições de 2026 vão afetar o fluxo de capital para o Brasil?
Segundo executivos do setor, não de forma abrupta. O cenário mais provável é uma diferença de intensidade na política fiscal entre os candidatos, não uma ruptura, independentemente de quem vencer.
O que é necessário para consolidar esse interesse estrangeiro de longo prazo?
Um ajuste fiscal consistente, seja no governo atual ou no próximo. Gestoras com horizonte longo são mais pacientes que especuladores, mas não toleram indefinidamente a deterioração das contas públicas.
- estadao.com.br — https://www.estadao.com.br/einvestidor/cenarios-e-mercado/fluxo-estrangeiro-acoes-brasileiras-onda-capital-bolsa-b3-ibovespa
- pt.linkedin.com — https://pt.linkedin.com/posts/mariosergioramalho2010_novo-marco-para-investimentos-estrangeiros-activity-7444381014568759296-oeQ-
- levysalomao.com.br — https://www.levysalomao.com.br/publicacoes/boletim/novo-marco-legal-de-cambio-favorecera-investimentos-estrangeiros
- gsga.com.br — https://gsga.com.br/pt/artigo/marco-legal-do-cambio-flexibiliza-o-fluxo-de-investimento-estrangeiro-no-pais
- cnnbrasil.com.br — https://www.cnnbrasil.com.br/economia/mercado/marcelo-mello-eleicoes-nao-devem-interromper-fluxo-de-capital-estrangeiro