Lula culpa percepção e minimiza riscos de déficit fiscal
Presidente desvincula dados econômicos da percepção popular e minimiza alertas fiscais, enquanto a dívida bruta sobe 8 pontos do PIB no governo Lula 3.
Por Patricia Nogueira · Editora de Seguranca Publica
Presidente desvincula dados econômicos da percepção popular e minimiza alertas fiscais, enquanto a dívida bruta sobe 8 pontos do PIB no governo Lula 3.
Lula disse, no dia 19 de março, que a economia brasileira é boa. O problema, segundo ele, está em quem a enxerga. A declaração foi feita no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, durante ato de pré-candidatura de Fernando Haddad ao governo de São Paulo.
O diagnóstico não é novo, mas o contexto em que foi repetido chama atenção. Pesquisa divulgada pela InfoMoney em 10 de março mostrava que 46% dos brasileiros percebem piora na economia e 43% avaliavam negativamente a condução do governo. Quase metade do país discorda da tese presidencial.
A pressão sobre combustíveis ajuda a explicar o descolamento. Com a escalada do petróleo provocada pelo conflito no Irã, os preços nas bombas subiram e o governo não conseguiu conter o avanço. Lula ainda criticou o reajuste do etanol, que não tem relação direta com a guerra, e chamou distribuidores de ‘bandidos’. Governos estaduais recusaram reduzir o ICMS, conforme detalhou a InfoMoney, travando o alívio prometido.
A questão fiscal
Três meses depois, em 10 de junho, o presidente abriu outra frente. No Conselhão, criticou quem prevê catástrofe caso o governo registre déficit primário de 0,20% do PIB. ‘Vai cair o mundo’, ironizou, parafraseando o que chama de alarmismo da Faria Lima. Para reforçar o ponto, listou as dívidas de países ricos: EUA com 120% do PIB, Itália perto de 200%, Japão acima de 280%, segundo registrou o Valor Econômico.
A comparação tem um problema central. Países com dívida elevada em relação ao PIB geralmente emitem moeda de reserva global, operam com juros reais baixos e acumularam décadas de credibilidade fiscal. O Brasil tem Selic entre as maiores do mundo e histórico recente de revisões de meta. Equiparar as duas realidades é ignorar o custo real do endividamento para um país emergente.
Em maio, o Ministério do Planejamento revisou a projeção de superávit de R$ 3,5 bilhões para R$ 4,1 bilhões, ainda dentro da meta de 0,25% do PIB. Mesmo assim, economistas alertam que medidas eleitorais podem tanto elevar a dívida quanto complicar o controle da inflação pelo Banco Central. Desde o início do governo Lula 3, a dívida bruta subiu mais de 8 pontos percentuais do PIB, de acordo com o Valor Econômico.
O que os números dizem
Quando quase metade da população percebe piora econômica, não se trata apenas de falha de comunicação. Custo de vida, juros altos e câmbio pressionado afetam o bolso antes de aparecer em qualquer agregado oficial. A percepção, nesse caso, pode estar captando algo que os dados ainda não mostram com clareza.
Desqualificar críticas fiscais como alarmismo tem efeito colateral imediato: sinalizar tolerância a déficits em ano eleitoral eleva prêmios de risco e encarece o crédito para empresas e consumidores. O efeito circula de volta para a percepção popular que o presidente quer reverter.
Com Haddad já posicionado para a disputa paulista e 2026 em curso, os incentivos para expandir gastos são evidentes. A pergunta que ficou sem resposta no Conselhão é a mesma que o mercado faz desde janeiro: se a meta for cumprida este ano, qual será o custo fiscal de 2027?
FAQ
Por que Lula disse que a percepção da sociedade sobre a economia é negativa? O presidente atribui a avaliação ruim a dificuldades de comunicação e a fatores externos como a alta dos combustíveis. Pesquisas mostram, porém, que 46% dos brasileiros percebem piora real no custo de vida, e 43% avaliam negativamente a condução do governo.
O Brasil vai ter déficit primário em 2026? A previsão oficial é superávit de R$ 4,1 bilhões, dentro da meta de 0,25% do PIB. Lula sinalizou tolerância a um eventual déficit de até 0,20% do PIB, o que preocupa economistas em ano eleitoral.
O que é o Conselhão e qual é o seu papel? O Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social reúne empresários, especialistas e representantes da sociedade civil. É um órgão consultivo sem poder vinculante sobre as decisões do governo, usado frequentemente como plataforma de sinalização política.
Por que o etanol ficou mais caro se não depende do petróleo importado? Distribuidores anteciparam reajustes mesmo sem justificativa direta no conflito do Irã. Lula chamou o comportamento de ‘bandidagem’, mas até o momento nenhuma medida concreta foi anunciada para coibir o repasse.
- infomoney.com.br — https://www.infomoney.com.br/politica/situacao-economica-e-boa-mas-percepcao-da-sociedade-nao-e-diz-lula
- valor.globo.com — https://valor.globo.com/brasil/noticia/2026/06/10/faria-lima-diz-que-se-tivermos-deficit-de-020percent-vai-cair-o-mundo-diz-lula.ghtml