Torneio proibido pelo TSE gera 8 milhões de views para deputado do PL
Torneio de cortes na Clipay gerou 8 milhões de views para pré-candidato do PL em MG, prática que o TSE proibiu em março e já usou para derrubar Pablo Marçal.
Por Beatriz Camargo · Reporter de Economia
Torneio de cortes na Clipay gerou 8 milhões de views para pré-candidato do PL em MG, prática que o TSE proibiu em março e já usou para derrubar Pablo Marçal.
Um torneio de vídeos iniciado no fim de maio acumulou mais de 8 milhões de visualizações para o deputado estadual Cristiano Caporezzo (PL-MG), pré-candidato a deputado federal e aliado da família Bolsonaro. O problema é que a prática está proibida pelo Tribunal Superior Eleitoral desde março de 2026.
O campeonato funciona pela plataforma Clipay. Editores de vídeo se inscrevem, produzem cortes a partir de material disponível no YouTube, Instagram ou TikTok e marcam o perfil oficial do parlamentar. A cada mil visualizações, o editor recebe R$ 0,50, com teto de R$ 500 por publicação. O corte mais assistido ao encerramento do torneio, previsto para meados de junho, leva R$ 2.500 em prêmio.
Caporezzo nega qualquer envolvimento com a organização da competição, segundo apurou O Globo. A negativa, porém, não encerra a questão jurídica: o entendimento consolidado pelo TSE recai sobre o beneficiário do conteúdo, não apenas sobre quem organiza a campanha.
O precedente Pablo Marçal
A prática já tem um caso-referência. Em 2025, o ex-coach Pablo Marçal (União) foi declarado inelegível após campanha com mecanismo similar. O TSE estabeleceu então que torneios de cortes que impulsionam candidatos configuram propaganda eleitoral irregular, independentemente de o beneficiado alegar desconhecimento.
O vídeo que mais circulou no torneio tem 540 mil visualizações no TikTok e mostra Caporezzo criticando uma declaração do presidente Lula sobre aborto. Outros cortes de destaque exibem debates com o influenciador e pré-candidato Jones Manoel (PSOL-PE) e críticas ao filósofo Karl Marx. A coerência temática com a plataforma política do deputado torna difícil sustentar a tese do desconhecimento diante de um eventual processo no tribunal.
O contexto eleitoral
No cenário do governo Lula 3, a direita enfrenta restrições crescentes na disputa pelo espaço digital. O TSE ampliou nos últimos anos o conceito de propaganda eleitoral antecipada, criando zonas cinzentas entre ativismo orgânico e campanha remunerada. Para partidos como o PL, que tem nas redes sociais uma vantagem estrutural consolidada, essas restrições têm impacto desproporcional.
Em junho de 2025, a BBC News Brasil reportou que a revista The Economist classificou Lula como “impopular em casa”, reflexo da percepção negativa sobre a economia mesmo diante dos indicadores que o próprio presidente defende. Em março de 2026, a InfoMoney registrou o presidente admitindo que “a situação econômica é boa, mas a percepção da sociedade ainda não é”. Esse vácuo entre narrativa oficial e realidade sentida é exatamente o combustível do tipo de conteúdo que o torneio de Caporezzo distribui.
A questão da simetria
Mais do que a legalidade de um torneio específico, o caso levanta uma questão de consistência. A proibição do TSE é legítima quando coíbe propaganda remunerada disfarçada de conteúdo espontâneo. O tribunal precisará, porém, demonstrar que aplica o mesmo critério a campanhas de todos os espectros políticos, sob pena de transformar a regulação digital em ferramenta assimétrica na eleição de 2026.
O ND Mais observa que a disputa de 2026 será marcada por decisões tomadas em Brasília, com STF e TSE no centro do xadrez político nacional. Uma eventual declaração de inelegibilidade antes das eleições teria efeito imediato sobre o mapa do PL em Minas Gerais, estado-chave para a composição de bancadas federais.
O torneio encerra em meados de junho. Se o TSE instaurar processo contra Caporezzo, o caso vai testar se a punição por torneios de cortes se consolida como jurisprudência uniforme ou permanece de aplicação seletiva. A resposta vai importar a candidatos de todos os partidos que ainda apostam nas redes como principal arena eleitoral.
Perguntas frequentes
O que é um campeonato de cortes e por que o TSE proibiu a prática?
Plataformas como a Clipay pagam editores para produzir clipes virais de candidatos. O TSE enquadrou isso como propaganda eleitoral remunerada antecipada, proibida fora do período oficial de campanha. O caso Pablo Marçal, em 2025, foi o primeiro a resultar em inelegibilidade por esse motivo.
Quem é Cristiano Caporezzo?
Deputado estadual pelo PL em Minas Gerais, aliado da família Bolsonaro e pré-candidato a deputado federal nas eleições de 2026. Ele nega envolvimento com a organização do torneio que impulsionou sua imagem digital.
Pablo Marçal foi inelegível pelo mesmo tipo de prática?
Sim. O TSE declarou Marçal inelegível em 2025 após campanha com torneio de cortes em formato semelhante, o que estabeleceu o precedente jurídico que agora pode ser aplicado ao caso Caporezzo.
O deputado pode ser responsabilizado mesmo negando envolvimento?
O entendimento firmado pelo TSE é que o beneficiário do conteúdo responde pela propaganda irregular independentemente de ter organizado ou autorizado o torneio diretamente. A negativa do parlamentar não afasta, por si só, essa possibilidade.
- oglobo.globo.com — https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/06/10/proibido-pelo-tse-campeonato-de-cortes-impulsiona-imagem-de-deputado-aliado-da-familia-bolsonaro.ghtml
- infomoney.com.br — https://www.infomoney.com.br/politica/situacao-economica-e-boa-mas-percepcao-da-sociedade-nao-e-diz-lula
- tendencias.com.br — https://tendencias.com.br/a-mao-pesada-do-governo-lula-na-economia-pesadelo-a-vista-estadao
- bbc.com — https://www.bbc.com/portuguese/articles/cgq77yl880xo
- ndmais.com.br — https://ndmais.com.br/politica/mato-grosso-do-sul-stf-e-congresso-podem-impactar-o-cenario-politico-de-ms/