Lula descarta alerta do mercado e minimiza déficit de 0,20% do PIB
No Conselhão, Lula minimizou risco de déficit primário e rebateu críticas do mercado financeiro, enquanto a dívida pública acumula alta desde 2023.
Por Marcelo Tavares · Editor-chefe
No Conselhão, Lula minimizou risco de déficit primário e rebateu críticas do mercado financeiro, enquanto a dívida pública acumula alta desde 2023.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quarta-feira que os agentes financeiros exageram ao prever catástrofe caso o Brasil feche 2026 com déficit primário de 0,20% do PIB. A declaração foi feita durante a 7ª reunião do Conselhão, em Brasília, e reacendeu o debate sobre a trajetória fiscal do governo Lula 3 a menos de seis meses das eleições.
Segundo o Valor Econômico, Lula resumiu a posição do mercado com ironia: “Faria Lima diz que, se tivermos déficit de 0,20%, vai cair o mundo.” O presidente comparou a situação fiscal do Brasil com a de países de dívida muito superior, citando Estados Unidos (120% do PIB), Itália (quase 200%) e Japão (quase 300%).
O argumento é retórico, mas esconde um problema de fundo. A comparação ignora que esses países emitem dívida em moedas de reserva global, pagam juros reais menores e têm histórico de estabilidade institucional que o Brasil ainda está construindo. A meta fiscal vigente exige superávit de 0,25% do PIB, e qualquer derrapagem, mesmo pequena, sinaliza ao mercado que o arcabouço pode ser flexibilizado à conveniência eleitoral.
O estado das contas
O Ministério do Planejamento revisou em 22 de maio a estimativa de superávit primário de R$ 3,5 bilhões para R$ 4,1 bilhões nas contas de 2026. O número soa positivo, mas economistas alertam que medidas adotadas neste ano eleitoral podem tanto elevar a dívida quanto dificultar o controle da inflação pelo Banco Central. Desde o início do terceiro mandato, a dívida bruta do governo geral subiu mais de 8 pontos percentuais em relação ao PIB, de acordo com dados citados pelo Valor Econômico.
A narrativa de Lula é conhecida: quem critica gastos sociais está do lado dos ricos contra os pobres. “Tudo o que a gente quer fazer para o pobre, aparece alguém e diz: não, isso gasta muito”, afirmou o presidente no Conselhão. O discurso ressoa politicamente, mas desvia o debate do que está em jogo. Com a Selic elevada, cada ponto adicional de dívida custa caro ao contribuinte, e esse custo recai também sobre os mais pobres, via inflação e menor investimento produtivo.
Em março, o próprio Lula havia admitido que a situação econômica é boa, mas que a percepção da sociedade “ainda não é boa”, conforme relatou a InfoMoney. Pesquisa Quaest daquele mês mostrou que 46% dos brasileiros percebem piora na economia e 43% avaliam negativamente a condução do governo. O dado revela um hiato entre o que o Palácio do Planalto apresenta como resultado e o que o cidadão sente no bolso.
O padrão do governo Lula 3
Não é a primeira vez que o governo Lula 3 colide com o mercado em questões fiscais. A revista britânica The Economist, conforme reportado pela BBC News Brasil, classificou Lula como “incoerente no exterior e impopular em casa” em meados de 2025, citando tanto a política externa quanto o distanciamento crescente dos investidores ocidentais. O intervencionismo nas estatais, registrado pelo Estadão desde 2024, segue como pano de fundo que alimenta a desconfiança.
O padrão se repete: o governo adota medidas que elevam gastos ou reduzem receitas, o mercado reage, e Lula enquadra a crítica como ataque de quem não quer o bem dos mais pobres. O ciclo não para, e a dívida não volta para onde estava.
O que vem pela frente
Com o calendário eleitoral se aproximando, a pressão por gastos tende a crescer, não a ceder. A pergunta que o mercado faz, e que Lula não respondeu no Conselhão, é direta: se o superávit revisado já é menor do que o projetado originalmente, qual é o plano concreto para fechar o ano dentro da meta? Sem essa resposta, o alerta da Faria Lima vai continuar ecoando, com ou sem aprovação presidencial.
FAQ
O que é o déficit primário de 0,20% do PIB? É o resultado negativo das contas do governo antes do pagamento dos juros da dívida. Um déficit de 0,20% do PIB em 2026 representaria cerca de R$ 24 bilhões abaixo do resultado zero, contrariando a meta fiscal que exige superávit de 0,25% do PIB.
Por que a Faria Lima se preocupa com um número aparentemente pequeno? Porque o que está em jogo não é só o resultado de um ano, mas o precedente. Se a meta é descumprida sem consequências, a credibilidade do arcabouço fiscal cai, o risco-Brasil sobe e os juros futuros avançam, encarecendo o crédito para toda a economia.
Qual é a situação atual da dívida pública brasileira? Desde o início do governo Lula 3, a dívida bruta do governo geral subiu mais de 8 pontos percentuais do PIB. O avanço reflete tanto os gastos primários quanto o custo elevado dos juros em ambiente de Selic alta.
A comparação de Lula com EUA, Itália e Japão é válida? Nos números brutos, sim. Mas ignora condições estruturais diferentes: esses países emitem dívida em moeda de reserva global, pagam juros reais muito menores e têm histórico institucional que reduz o prêmio de risco. O Brasil ainda está construindo esse histórico.
- valor.globo.com — https://valor.globo.com/brasil/noticia/2026/06/10/faria-lima-diz-que-se-tivermos-deficit-de-020percent-vai-cair-o-mundo-diz-lula.ghtml
- infomoney.com.br — https://www.infomoney.com.br/politica/situacao-economica-e-boa-mas-percepcao-da-sociedade-nao-e-diz-lula
- tendencias.com.br — https://tendencias.com.br/a-mao-pesada-do-governo-lula-na-economia-pesadelo-a-vista-estadao
- bbc.com — https://www.bbc.com/portuguese/articles/cgq77yl880xo
- oglobo.globo.com — https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/06/10/proibido-pelo-tse-campeonato-de-cortes-impulsiona-imagem-de-deputado-aliado-da-familia-bolsonaro.ghtml
- ndmais.com.br — https://ndmais.com.br/politica/mato-grosso-do-sul-stf-e-congresso-podem-impactar-o-cenario-politico-de-ms/