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Estudo do IBRE revela desequilíbrio fiscal estrutural

Estudo do FGV-IBRE diagnostica trajetória de deterioração fiscal, com projeções de déficits até 2036, contrastando com indicadores econômicos positivos e pressões nas contas est...

Por Rodrigo Vasconcelos · Colunista

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TL;DR · 4 min de leitura

Estudo do FGV-IBRE diagnostica trajetória de deterioração fiscal, com projeções de déficits até 2036, contrastando com indicadores econômicos positivos e pressões nas contas est...

Um diagnóstico do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE) quantifica a deterioração que números aparentemente favoráveis mascaram: a dívida líquida do setor público saltou de 32% do PIB em 2015 para 65,3% no final de 2025, mais que dobrando em uma década. Conforme mostram economistas que estudaram o tema para o IEDI, os déficits nominais acima de 8% do PIB desde 2023 replicam patamares associados a períodos de crise fiscal, um quadro que contrasta com mensagens oficiais de crescimento econômico robusto.

Enquanto o palácio do Planalto celebra desemprego de 5,2% e inflação de 4,26%, pesquisas mostram que 61% dos brasileiros avaliam o poder de compra como reduzido e 46% percebem piora econômica generalizada. O próprio governo reconhece essa fissura entre estatísticas e realidade vivida pelos cidadãos, como Lula admitiu publicamente, ao afirmar que a situação é boa mas a percepção não acompanha. A deterioração não é privilégio do governo federal: os governos estaduais projetam déficit de 6 bilhões em 2026.

O que diferencia esta análise é trazer para o centro do debate o que nenhum indicador de emprego consegue resolver: uma engrenagem fiscal que se descontrola independentemente de políticas de curto prazo. Sem medidas estruturais, as simulações do IBRE indicam déficits primários até 2036, um horizonte que torna insuficiente qualquer celebração de resultados momentâneos. A matéria que segue explora não apenas os números que o governo quer destacar, mas o desequilíbrio subjacente que ameaça a sustentabilidade das contas públicas.

A trajetória de 15 anos que triplicou a dívida e inverteu superávits em déficits

Nos últimos quinze anos, o Brasil acumulou uma transformação fiscal sem precedentes. A dívida líquida do setor público aumentou de 32% do Produto Interno Bruto em setembro de 2015 para 65,3% em dezembro de 2025, mais que duplicando em apenas uma década, segundo estadao.com.br. Esse movimento é ainda mais pronunciado quando se observa a dívida bruta do governo geral, que cresceu de 52,2% do PIB em maio de 2014 para 78,6% em dezembro de 2025, um salto de 26,4 pontos porcentuais. O crescimento exponencial dessa carga de dívida reflete decisões de política fiscal que se acumularam ao longo de duas décadas.

Na década de 2000, o Brasil mantinha superávits primários consistentes da ordem de 4% do PIB, indicando solidez nas finanças públicas. Essa realidade inverteu-se radicalmente a partir de 2014, com o surgimento de déficits primários em torno de 2%, uma deterioração de 6 pontos porcentuais do PIB que marca a transição para um regime de desequilíbrio estrutural. Conforme analisa valor.globo.com, o equilíbrio das contas públicas segue sendo um desafio fundamental com efeitos multiplicadores sobre as taxas de juros e o custo do crédito. O país passou de gerador de recursos para um padrão de endividamento permanente que contrasta com sua história fiscal anterior.

Essa sequência de desajustes estruturais revela que o problema não é conjuntural ou resultado de uma crise econômica passageira. Os déficits primários contínuos refletem escolhas de gasto que ultrapassam sistematicamente a capacidade de arrecadação do Estado, criando uma incompatibilidade crescente entre receitas e despesas. O fenômeno foi amplificado pelo aumento dos juros nominais, que transformou a deterioração do resultado primário em uma espiral de aumento acelerado da dívida. Sem reversão significativa na trajetória estrutural dos gastos públicos, as projeções fiscais indicam continuação dessa piora nos próximos anos.

O paradoxo econômico: indicadores oficiais positivos versus percepção de crise entre brasileiros

Os números do mercado de trabalho brasileiro apresentam uma realidade estatística impressionante. A taxa de desemprego fechou novembro de 2025 em 5,2%, a menor marca de toda a série histórica do IBGE que começou em 2012, segundo valor.globo.com. Essa queda consistente da desocupação representaria sucesso em qualquer contexto de política pública. No entanto, a percepção da população segue inversamente oposta: 49% dos brasileiros entrevistados em pesquisas recentes afirmam que ficou mais difícil arrumar emprego em relação ao ano anterior. O contraste entre o indicador oficial e a experiência vivida revela uma desconexão fundamental entre o que os números mostram e o que as pessoas sentem.

O cenário se repete de forma ainda mais acentuada com os preços ao consumidor. O IPCA encerrou 2025 em 4,26%, a menor variação desde 2018, ficando abaixo do teto da meta de inflação do Banco Central, conforme documentado por infomoney.com.br. Apesar dessa melhora oficial nos preços gerais, 61% dos brasileiros declaram que seu poder de compra diminuiu no período, e 58% relatam que alimentos ficaram notavelmente mais caros no supermercado. A diferença entre a inflação média medida e a percepção de carestia sugere que a população experimenta aumentos desproporcionais nos itens essenciais, particularmente nos produtos que integram a cesta básica.

Essa desconexão se intensifica quando se considera o crescimento macroeconômico e a avaliação global do governo. O Banco Central projeta crescimento do PIB de 3,8% para 2024, resultado que colocaria o Brasil entre as economias em melhor desempenho relativo. Ainda assim, pesquisas de opinião indicam que 43% dos brasileiros avaliam negativamente a economia e a condução do governo federal. O paradoxo revela que o crescimento agregado não se distribui uniformemente, deixando segmentos significativos da população à margem de seus benefícios. Essa experiência diferenciada entre a macroeconomia oficial e a microeconomia cotidiana representa o verdadeiro desafio político do país.

Estados ampliam gastos em ano eleitoral, invertendo superávits em déficits estruturais

De acordo com projeções da XP Investimentos divulgadas por oglobo.globo.com, os governadores devem fechar 2026 com déficit fiscal de R$ 6 bilhões, revertendo completamente o superávit de R$ 6,6 bilhões registrado em 2025. Até abril deste ano, as despesas estaduais cresceram 6,5% acima da inflação, enquanto a arrecadação de impostos avançou apenas 3,3%, evidenciando a aceleração do gasto que marca anos eleitorais.

O padrão se repete nas escolhas políticas de governadores: quando há disponibilidade de caixa, expandem-na para fortalecer sua base eleitoral. Conforme registrado por infomoney.com.br, diversos governos estaduais têm resistido a participar de medidas de contenção de receita, como redução de impostos sobre combustíveis, preferindo manter orçamentos elevados para promover despesas correntes e políticas de impacto eleitoral.

A mudança de trajetória é particularmente grave porque encerra um período de relativa estabilização das finanças subnacionais, quando os estados conseguiram acumular caixa nos anos anteriores. Essa reversão ocorre em cenário de juros altos e elevado custo de financiamento público, reduzindo significativamente a margem de manobra fiscal futura desses entes para responder a crises ou choques econômicos.

Prognóstico do IBRE projeta déficits até 2036 e pressiona urgência de ajuste fiscal

O estudo dos economistas Manoel Pires e Bráulio Borges do Instituto Brasileiro de Economia divulgado por estadao.com.br projeta déficits nominais superiores a 8% do PIB desde 2023, um patamar normalmente associado a períodos de crise fiscal. Conforme a trajetória do PLDO 2027, a dívida bruta do governo geral subiria de 78,6% do PIB em 2025 para 87,8% em 2029, enquanto a dívida líquida do setor público passaria de 65,2% para 76,1% no mesmo período.

A gravidade desses números reside em suas implicações para a economia. Conforme reportado por valor.globo.com, o equilíbrio das contas públicas surge como um dos principais desafios a ser enfrentado, com impactos diretos na trajetória de juros e na confiança dos mercados financeiros na capacidade de pagamento da dívida pública brasileira.

O diagnóstico do IBRE reforça um debate já presente entre economistas e autoridades: o trade-off entre a necessidade imediata de ajuste fiscal e os riscos de recessão econômica caso as medidas sejam muito severas. Essa tensão é particularmente aguda em contexto eleitoral, quando decisões fiscais significativas são politicamente custosas, tornando qualquer medida de impacto orçamentário relevante um desafio institucional além do econômico.

Quando o diagnóstico técnico encontra a realidade eleitoral

O estudo de Pires e Borges no FGV-IBRE deixa cristalino que o Brasil enfrenta um desequilíbrio fiscal estrutural sem precedentes: a dívida líquida do setor público mais que dobrou em uma década, saindo de 32% para 65,3% do PIB, enquanto déficits nominais acima de 8% persistem desde 2023. O diagnóstico contém propostas de ajuste gradual e reconhece o tamanho real do problema. O governo, por sua vez, responde à mesma realidade com uma narrativa oposta: em março deste ano, Lula insistiu que a situação econômica é boa, atribuindo a percepção negativa a um “problema de percepção”. Essa desconexão entre diagnóstico técnico e resposta política não é acidental em ano eleitoral.

Os estados ilustram o problema em tempo real. Enquanto o governo federal nega a urgência do ajuste, as unidades federativas aumentam despesas 6,5% acima da inflação enquanto sua arrecadação cresce apenas 3,3%, produzindo um déficit agregado de R$ 6 bilhões em 2026. Trata-se de uma inversão drástica do superávit de R$ 6,6 bilhões em 2025. A maior disponibilidade de caixa em 2025 (R$ 29 bilhões restantes) alimentou a ilusão de que havia espaço para gastar, reproduzindo em nível subnacional o erro de diagnóstico que caracteriza a administração federal.

O custo dessa desconexão entre realidade fiscal e ação política será cobrado após a eleição. Se nem o governo nem os estados conseguem reconhecer publicamente a magnitude do ajuste necessário, ainda que especialistas produzam estudos inequívocos, fica claro por que o mercado mantém prêmios de risco elevados e por que a dívida continua sua trajetória de deterioração mesmo diante de indicadores econômicos oficialmente positivos. A percepção não é o problema; o problema é que ninguém entre os decisores políticos está disposto a abraçar a solução.

O diagnóstico do IBRE deixa clara uma ruptura no padrão fiscal brasileiro. A deterioração de seis pontos porcentuais do resultado primário entre a década passada e 2014 não foi uma anomalia, mas o início de uma transformação estrutural nas contas públicas. A trajetória de endividamento que levou a dívida a mais que dobrar em uma década revela que o país esgotou as opções de crescimento sem ajustes. As projeções indicam que mesmo um ajuste gradualista deixaria o país em déficit primário até 2036, sinalizando deterioração contínua.

O paradoxo que marca o momento é a divergência entre indicadores econômicos favoráveis e a percepção crescente de piora entre a população. Nas finanças estaduais, o mesmo fenômeno se repete com gastos eleitorais que já projetam déficits bilionários para este ano. O próximo governo herdará um país onde a pressão fiscal sobre investimentos, políticas sociais e infraestrutura será cada vez maior. Nesse contexto, a pergunta que emerge não é se haverá ajuste fiscal, mas quem pagará o custo de não tê-lo feito há uma década.

Perguntas Frequentes

Por que a dívida pública do Brasil cresceu tanto em dez anos? A dívida cresceu porque o país passou a ter déficits primários combinados com juros elevados, duplicando de aproximadamente 30% para 65% do PIB entre 2015 e 2025.

O que diferencia déficit primário de déficit nominal? O déficit primário é quando gastos excedem receitas sem contar juros, enquanto o nominal inclui esses juros e pode ser muito maior quando as taxas estão altas.

Como o desequilíbrio fiscal afeta o cidadão comum? Maior dívida pública pressiona os juros, prejudica investimentos em educação e saúde, limita criação de empregos e reduz o poder de compra ao longo do tempo.

Qual é a situação fiscal dos estados brasileiros? Vários estados entraram 2026 com caixa negativo e estão aumentando gastos acima da arrecadação em ano eleitoral, projetando déficits bilionários coletivos.

O que significa ajuste fiscal gradualista? É uma estratégia de reduzir gastos e aumentar receitas lentamente ao longo dos anos para evitar impactos severos na economia, mas que ainda assim deixaria o Brasil em déficit primário até 2036.

Fontes
  • estadao.com.br — https://www.estadao.com.br/economia/fernando-dantas/uma-proposta-de-ajuste-fiscal-gradualista/
  • cnnbrasil.com.br — https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/lula-critica-projecoes-do-mercado-e-volta-a-prever-alta-do-pib-de-38-em-2024
  • infomoney.com.br — https://www.infomoney.com.br/politica/situacao-economica-e-boa-mas-percepcao-da-sociedade-nao-e-diz-lula
  • valor.globo.com — https://valor.globo.com/politica/noticia/2026/01/20/percepcao-negativa-sobre-economia-e-desafio-para-lula.ghtml
  • oglobo.globo.com — https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/06/08/governadores-aumentam-gastos-e-estados-devem-somar-deficit-de-r-6-bi-no-ano-eleitoral.ghtml
  • ndmais.com.br — https://ndmais.com.br/politica/lula-2006-e-2026-o-que-se-repete-na-corrida-pela-reeleicao/

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