Dólar | Selic | IBOV
Brasilia 4 min de leitura

Estados projetam déficit de R$ 6 bi em 2026 com gasto 6,5% acima da inflação

Governadores aceleram gastos em ano eleitoral e estados devem acumular déficit de R$ 6 bilhões em 2026, após superávit de R$ 6,6 bi no ano anterior.

Por Rodrigo Vasconcelos · Colunista

Compartilhar:
TL;DR · 4 min de leitura

Governadores aceleram gastos em ano eleitoral e estados devem acumular déficit de R$ 6 bilhões em 2026, após superávit de R$ 6,6 bi no ano anterior.

Os estados brasileiros devem encerrar 2026 com um rombo de R$ 6 bilhões nas contas públicas. É o que projeta a XP Investimentos em levantamento divulgado nesta segunda-feira. O número impressiona menos pelo tamanho do que pelo que representa: uma reversão de R$ 12,6 bilhões em relação ao superávit de R$ 6,6 bilhões registrado em 2025.

A lógica por trás do movimento é direta. Até abril, conforme apurado pelo O Globo, a despesa total estadual cresceu 6,5% acima da inflação. A arrecadação de impostos e outras receitas avançou apenas 3,3% no mesmo período, em termos reais. Gastar o dobro do que se arrecada a mais tem um nome técnico: deterioração fiscal. E tem uma causa política bem conhecida.

O economista Tiago Sbardelotto, da XP, resume sem eufemismos: quando existe espaço fiscal, esses entes tendem a aumentar a despesa acima dos anos anteriores. E 2026 é ano eleitoral.

O caixa que abre a torneira

Os estados chegaram a janeiro com R$ 29 bilhões em reservas de caixa, herança do bom desempenho de 2025. Esse colchão financeiro é o que está sendo consumido agora para bancar a expansão do gasto. O problema é que a reserva já era bem menor do que os R$ 49 bilhões disponíveis no final de 2024, o que sinaliza que o espaço vai se estreitando conforme o calendário avança.

Alguns estados nem chegaram ao ano com caixa positivo. Minas Gerais, que foi administrado por Romeu Zema (Novo) até abril, quando ele deixou o governo para se lançar pré-candidato à Presidência, entrou em 2026 com um déficit de caixa de R$ 11 bilhões. Rio Grande do Norte, sob Fátima Bezerra (PT) no fim do segundo mandato consecutivo, registrava menos R$ 3 bilhões disponíveis. Alagoas, com Paulo Dantas (MDB) encerrando a gestão, apresentava caixa negativo de R$ 926 milhões. Distrito Federal e Acre completam o grupo de situação mais delicada.

Não é coincidência que os piores casos sejam justamente os estados cujos governadores encerram mandatos ou já saíram. O incentivo a preservar o caixa para o próximo gestor simplesmente desaparece quando não há segunda prestação de contas a fazer.

A deterioração no contexto federal

O rombo estadual não ocorre isolado. Ele se sobrepõe a um quadro federal que já vinha em trajetória preocupante antes de o ciclo eleitoral começar. Economistas do FGV-IBRE, em estudo publicado pelo Estadão, documentam que o Brasil acumula déficits nominais superiores a 8% do PIB desde 2023, patamar normalmente associado a situações de crise fiscal.

A dívida bruta do governo geral saiu de 52,2% do PIB em 2014 para 78,6% ao final de 2025. A dívida líquida mais que dobrou no mesmo período: de 32% para 65,3% do PIB. As projeções do IBRE indicam que, mesmo com o ajuste planejado pelo governo Lula 3, a dívida bruta pode alcançar 87,8% do PIB em 2029. Nesse patamar, qualquer choque externo tem capacidade de deflagrar uma crise de confiança com velocidade desproporcional.

O padrão que se repete

Não é a primeira vez que um ciclo eleitoral impõe esse ritmo às contas públicas. Em 2006, também em disputa presidencial, o governo federal usou o espaço de arrecadação para expandir programas sociais e consolidar apoio. Vinte anos depois, como aponta o ND Mais, os contextos diferem, mas o padrão fiscal se reproduz: caixa disponível vira gasto, gasto vira capital eleitoral, e a conta fica para o exercício seguinte.

O agravante em 2026 é que o exercício seguinte herda uma dívida em trajetória ascendente, juros reais elevados e um mercado cada vez mais cético. A percepção negativa da população sobre a economia, registrada em pesquisas citadas pelo InfoMoney, não é irracional: inflação que corrói o salário e serviços que não melhoram são os frutos previsíveis de décadas de expansão de despesa sem contrapartida de eficiência.

O que vem depois

A questão que 2027 vai responder é direta: quem ganhar a eleição terá vontade política para reverter o ciclo? A experiência mostra que cortar gastos após um ano eleitoral exige capital político que raramente sobra. Os R$ 6 bilhões de déficit projetados para os estados em 2026 são apenas o início da conta que o próximo ciclo de governo vai herdar.

Perguntas frequentes

Por que os estados gastam mais em ano eleitoral? Governadores, especialmente os que encerram mandatos ou deixam o cargo, têm incentivo para usar o caixa disponível antes de passar a gestão. O ciclo político premia o gasto de curto prazo e adia o custo fiscal para o sucessor, padrão documentado em diversas eleições brasileiras.

Quais estados estão em situação mais crítica? Minas Gerais entrou em 2026 com caixa negativo de R$ 11 bilhões, o maior déficit de reservas do país. Rio Grande do Norte registrava menos R$ 3 bilhões disponíveis, e Alagoas, menos R$ 926 milhões. Distrito Federal e Acre também aparecem no grupo de situação desfavorável, segundo a XP Investimentos.

O déficit dos estados afeta o cidadão diretamente? Sim. Estados com caixa negativo tendem a atrasar pagamentos ao funcionalismo e a fornecedores, reduzir investimentos em infraestrutura e saúde, e eventualmente pressionar o governo federal por socorro financeiro, o que piora as contas nacionais e alimenta a pressão sobre os juros.

Qual é a trajetória da dívida pública federal? Segundo o FGV-IBRE, a dívida bruta do governo geral pode chegar a 87,8% do PIB em 2029, mesmo com o ajuste fiscal previsto para o período. Sem medidas adicionais de controle, os modelos dos pesquisadores apontam déficits primários contínuos até 2036.

Fontes
  • oglobo.globo.com — https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/06/08/governadores-aumentam-gastos-e-estados-devem-somar-deficit-de-r-6-bi-no-ano-eleitoral.ghtml
  • cnnbrasil.com.br — https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/lula-critica-projecoes-do-mercado-e-volta-a-prever-alta-do-pib-de-38-em-2024
  • infomoney.com.br — https://www.infomoney.com.br/politica/situacao-economica-e-boa-mas-percepcao-da-sociedade-nao-e-diz-lula
  • bbc.com — https://www.bbc.com/portuguese/articles/cgq77yl880xo
  • estadao.com.br — https://www.estadao.com.br/economia/fernando-dantas/uma-proposta-de-ajuste-fiscal-gradualista/
  • ndmais.com.br — https://ndmais.com.br/politica/lula-2006-e-2026-o-que-se-repete-na-corrida-pela-reeleicao/

Artigos relacionados