Lula admite descrença popular, mas defende que economia vai bem
Pesquisas mostram que 61% dos brasileiros sentem queda no poder de compra enquanto o governo Lula aponta pleno emprego e inflação controlada.
Por Beatriz Camargo · Reporter de Economia
Pesquisas mostram que 61% dos brasileiros sentem queda no poder de compra enquanto o governo Lula aponta pleno emprego e inflação controlada.
No dia 19 de março, diante de metalúrgicos do grande ABC paulista, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enunciou, em voz alta, o maior dilema político do seu terceiro mandato: “A situação econômica é boa, mas a percepção da sociedade ainda não é boa.” A confissão, feita num palanque de pré-campanha para Fernando Haddad, expõe uma fissura que os indicadores oficiais não conseguem fechar.
O descompasso é documentado. Pesquisa Genial/Quaest de janeiro de 2026, reportada pelo Valor Econômico, mostrou que 61% dos brasileiros dizem que o poder de compra está menor do que há um ano e 58% afirmam que os alimentos ficaram mais caros no supermercado. Outra rodada da Quaest, divulgada em março, apontou que 46% dos brasileiros enxergam piora na economia e 43% avaliam negativamente a condução econômica do governo, conforme registrou a InfoMoney.
O fosso entre dado e vivência
Os indicadores oficiais, de fato, são positivos. A taxa de desemprego chegou a 5,2% em novembro de 2025, o menor patamar da série histórica do IBGE desde 2012. O IPCA fechou 2025 em 4,26%, abaixo do teto da meta e o menor resultado desde 2018, ainda que acima do centro da meta de 3%, aspecto que o Palácio do Planalto prefere não enfatizar.
O problema está na composição do custo de vida. Inflação de alimentos acima da média, juros reais entre os mais altos do mundo e carga tributária pesada comprimem o orçamento doméstico mesmo num contexto de pleno emprego. Quando energia, aluguel e alimentação sobem mais do que o índice geral, o trabalhador com carteira assinada perde poder de compra mesmo em anos de inflação controlada. Os números médios escondem essa distribuição desigual.
A disputa de narrativa com o mercado
Não é a primeira vez que o governo Lula 3 confronta projeções privadas com a própria leitura da conjuntura. Em discurso no aniversário de 45 anos do PT, o presidente relembrou que o mercado previu crescimento de apenas 0,8% para 2023, enquanto o resultado foi 3,2%. Para 2024, adotou como bandeira a projeção do Banco Central de 3,8% de expansão do PIB, conforme registrou a CNN Brasil. A estratégia funciona em eventos partidários, mas não explica por que a desconfiança popular persiste mesmo diante desses resultados.
A alta do combustível acendeu um novo front. Com o conflito no Irã pressionando o preço do petróleo, distribuidoras repassaram custos ao consumidor e, segundo o próprio Lula, incluíram produtos sem relação direta com a guerra, como o etanol. O governo federal tentou subsidiar parte do reajuste, mas governos estaduais resistiram a abrir mão da receita do ICMS. O resultado foi uma alta percebida no cotidiano que alimentou a sensação de deterioração, independentemente do que apontam as estatísticas oficiais.
O que os números não alcançam
Há um componente histórico que ultrapassa qualquer gestão. O Brasil acumulou mais de uma década de crescimento medíocre, duas recessões, uma pandemia e uma inflação que corroeu salários reais. A memória econômica do brasileiro médio é de perda continuada. Recuperar essa confiança exige tempo e estabilidade, não apenas trimestres positivos.
A diretora da Ipsos-Ipec, Márcia Cavallari, citada pelo Valor Econômico, aponta que num ambiente de forte polarização política, mesmo indicadores oficiais favoráveis não bastam para reverter a percepção: quem não votou no governo tende a filtrar as boas notícias pela desconfiança partidária. É uma armadilha que nenhuma estatística resolve sozinha.
O que vem pela frente
Com as eleições de outubro de 2026 no horizonte, o governo tem meses para transformar percepção em voto. A estratégia declarada passa por Haddad no governo de São Paulo como vitrine do projeto petista. Enquanto isso, o equilíbrio fiscal segue frágil e os juros pressionam a dívida pública. Se o custo de vida não recuar de forma perceptível nos próximos meses, a frase dita no ABC paulista pode continuar assombrando as pesquisas até o dia da eleição.
Perguntas frequentes
O que Lula disse sobre a economia em março de 2026?
Em ato de pré-campanha em São Bernardo do Campo, Lula afirmou que a situação econômica é boa, mas reconheceu que a percepção da sociedade ainda não acompanha essa avaliação, admitindo publicamente o distanciamento entre dados oficiais e o que o brasileiro sente no cotidiano.
Por que os brasileiros não percebem melhora na economia?
Pesquisas apontam que 61% sentem queda no poder de compra e 58% dizem que os alimentos estão mais caros. A combinação de juros elevados, inflação de alimentos acima da média e memória acumulada de perdas explica o descompasso entre os indicadores e a experiência cotidiana.
Qual é a taxa de desemprego no Brasil em 2026?
Segundo o IBGE, a taxa chegou a 5,2% em novembro de 2025, o menor nível desde o início da série histórica em 2012. Apesar disso, 49% dos entrevistados pela Quaest disseram que está mais difícil conseguir emprego do que há um ano.
O aumento do combustível vai continuar?
O reajuste foi impulsionado pelo conflito no Irã. O governo federal tentou subsidiar parte da alta, mas estados resistiram a reduzir o ICMS. A trajetória depende do desenrolar do conflito e de eventuais acordos entre as esferas de governo.
- infomoney.com.br — https://www.infomoney.com.br/politica/situacao-economica-e-boa-mas-percepcao-da-sociedade-nao-e-diz-lula
- cnnbrasil.com.br — https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/lula-critica-projecoes-do-mercado-e-volta-a-prever-alta-do-pib-de-38-em-2024
- valor.globo.com — https://valor.globo.com/politica/noticia/2026/01/20/percepcao-negativa-sobre-economia-e-desafio-para-lula.ghtml
- ndmais.com.br — https://ndmais.com.br/politica/fora-das-urnas-prefeitos-de-ms-serao-articuladores-das-eleicoes-de-2026/