Aliados de Lula em 2022 criticam deterioração fiscal do governo Lula 3
Economistas que votaram em Lula por razões democráticas agora criticam abertamente a gestão fiscal do governo Lula 3 e o esvaziamento do arcabouço fiscal.
Por Henrique Sales · Analista de Geopolitica
Economistas que votaram em Lula por razões democráticas agora criticam abertamente a gestão fiscal do governo Lula 3 e o esvaziamento do arcabouço fiscal.
Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central e sócio da Gávea Investimentos, usou uma palavra precisa para descrever o estado das finanças públicas no governo Lula 3: “deterioração explícita”. A frase foi dita em entrevista ao Estadão e resume o tom de uma onda crescente de críticas que vem de onde o Palácio do Planalto menos esperava — de economistas que apoiaram a candidatura do petista em 2022.
Um dia depois, Luis Stuhlberger, gestor do Fundo Verde e um dos investidores mais influentes do país, foi mais duro. “Eu me penitencio por ter acreditado que o PT teria alguma seriedade fiscal”, declarou em encontro com investidores, descrevendo o projeto orçamentário de 2025 como uma “peça de ficção”. Segundo ele, todo o espaço para gastos previsto pelo arcabouço fiscal já está comprometido nos orçamentos dos dois próximos anos, por conta de novas despesas criadas pelo próprio governo.
O peso político dessas vozes não é trivial. Fraga havia declarado voto em Lula no segundo turno de 2022 em nome da defesa da democracia. Stuhlberger dissera publicamente, em 2021, que jamais voltaria a votar em Jair Bolsonaro. Outros nomes que expressaram apoio ao PT naquele período — Pedro Malan, Elena Landau, Henrique Meirelles e Persio Arida — já externaram decepção semelhante com o desempenho econômico do terceiro mandato, conforme levantamento do Estadão.
O que a população já sente
A distância entre o discurso oficial e a realidade percebida pelos brasileiros é medida em pesquisas, não em retórica. Em março de 2026, durante ato de pré-candidatura de Fernando Haddad ao governo paulista, Lula admitiu que “a situação econômica é boa, mas a percepção da sociedade ainda não é boa”, conforme a InfoMoney. A declaração foi honesta em um ponto: reconheceu o abismo entre o que o governo anuncia e o que o cidadão sente.
Esse abismo tem números. Na pesquisa Quaest de 10 de março, 46% dos brasileiros avaliavam que a economia piorou e 43% classificavam negativamente a condução econômica de Lula. O custo de vida, agravado pela alta do combustível ligada ao conflito no Irã, contribui para esse quadro. O governo propôs subsídios, mas esbarrou na resistência de governadores estaduais em reduzir o ICMS.
O diagnóstico de agências internacionais aponta na mesma direção das críticas internas. A Exame, ao cobrir análise da Fitch em junho de 2026, resumiu o cenário em três variáveis: crescimento do PIB, inflação acima da meta e Selic travada em patamar elevado. Crescimento existe, mas o custo fiscal e monetário é alto.
Lula, por sua vez, segue em outra frequência. Em discurso no aniversário do PT, atribuiu os bons números da economia à gestão de Fernando Haddad e previu crescimento de 3,8% do PIB em 2024, citando o Banco Central como referência, conforme a CNN Brasil. O que o presidente não detalhou é que crescimento com juros altos e inflação corroendo renda real é um resultado incompleto.
O que os números escondem
Crescimento do PIB, isolado, não conta a história toda. Quando Fraga e Stuhlberger falam em “deterioração explícita” e orçamento como “peça de ficção”, estão sinalizando algo estrutural: o arcabouço fiscal aprovado como substituto do teto de gastos não está cumprindo seu papel de ancoragem. Se o espaço para despesas dos próximos dois anos já está esgotado por obrigações criadas pelo próprio governo, qualquer choque externo — queda de arrecadação, câmbio desfavorável, alta de commodities — vira crise sem amortecedor.
A história reforça a preocupação. No governo Lula de 2003 a 2010, o ciclo de bonança das commodities funcionou como colchão e disfarçou desequilíbrios que viriam a pesar nos anos seguintes. O governo Lula 3 não conta com esse mesmo ciclo favorável e opera com carga tributária maior, dívida pública mais elevada e mercado de crédito pressionado pela Selic.
Com as eleições de 2026 se aproximando, o cenário fiscal vai se tornar central no debate. Se os economistas que apoiaram Lula em 2022 já falam abertamente em erro de avaliação, a pergunta que fica é direta: o governo tem algum plano crível de ajuste que vá além de projeções otimistas de arrecadação?
Perguntas frequentes
O que é o arcabouço fiscal e por que está sendo criticado? É a regra que substituiu o teto de gastos e limita o crescimento das despesas públicas. Os críticos argumentam que o governo criou tantas despesas novas que já esgotou o espaço disponível para os próximos dois anos.
Quem é Armínio Fraga e por que sua crítica tem peso? Ex-presidente do Banco Central durante o governo FHC e sócio da Gávea Investimentos. O fato de ter votado em Lula em 2022 torna sua crítica politicamente difícil de ignorar, pois não pode ser descartada como oposição partidária.
Por que economistas que apoiaram Lula agora o criticam? Porque apoiaram a candidatura por razões democráticas, não por concordância com a política econômica do PT. Quando a gestão fiscal decepcionou, a avaliação mudou.
O governo tem algum plano concreto de ajuste fiscal? Não há anúncio crível até o momento. O discurso oficial tem priorizado destacar o crescimento do PIB e atribuir a percepção negativa a fatores externos.
- estadao.com.br — https://www.estadao.com.br/economia/economistas-criticas-governo-lula-terceiro-mandato-gestao-contas-publicas-nprei
- cnnbrasil.com.br — https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/lula-critica-projecoes-do-mercado-e-volta-a-prever-alta-do-pib-de-38-em-2024
- infomoney.com.br — https://www.infomoney.com.br/politica/situacao-economica-e-boa-mas-percepcao-da-sociedade-nao-e-diz-lula
- exame.com — https://exame.com/invest/mercados/brasil-cresce-inflacao-estoura-e-selic-trava-o-diagnostico-da-fitch-para-2026/
- ndmais.com.br — https://ndmais.com.br/politica/fora-das-urnas-prefeitos-de-ms-serao-articuladores-das-eleicoes-de-2026/