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Brasilia 4 min de leitura

Governo Lula 3 festeja PIB enquanto 61% sentem alimentos mais caros

Com 46% vendo piora na economia, o governo Lula enfrenta o hiato entre indicadores oficiais e a realidade do supermercado às vésperas de 2026.

Por Beatriz Camargo · Reporter de Economia

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TL;DR · 4 min de leitura

Com 46% vendo piora na economia, o governo Lula enfrenta o hiato entre indicadores oficiais e a realidade do supermercado às vésperas de 2026.

Sessenta e um por cento dos brasileiros afirmam que seu poder de compra recuou nos últimos doze meses. Para 58%, os preços no supermercado subiram no mesmo período. São dados da pesquisa Genial/Quaest, divulgada em janeiro, enquanto o presidente Lula discursava sobre crescimento do PIB em eventos pelo país.

A resposta oficial veio em março, num ato de pré-candidatura em São Bernardo do Campo. “A situação econômica é boa, mas a percepção da sociedade ainda não é boa”, declarou Lula, segundo o InfoMoney. Para o governo, o problema não está nos preços; está na leitura que o consumidor faz deles.

Há um problema com esse diagnóstico.

O que os números oficiais dizem

A taxa de desemprego chegou a 5,2% em novembro de 2025, o menor patamar desde o início da série histórica do IBGE, em 2012. O IPCA fechou 2025 em 4,26%, abaixo do teto da meta, embora ainda distante do centro de 3%. O PIB é o principal trunfo do discurso presidencial: Lula chegou a prever crescimento de 3,8% para 2024, criticando analistas que projetavam menos, conforme registrou a CNN Brasil.

Tomados isoladamente, os indicadores parecem positivos. O eleitor, porém, não paga conta com agregados macroeconômicos; paga com salário que não acompanhou o caixa do mercado.

A inflação oficial mede médias ponderadas de uma cesta ampla de bens e serviços. Produtos como carnes, hortaliças e frutas pesam mais no orçamento das famílias de menor renda e tendem a subir acima da média do índice geral. Quando o governo afirma que a inflação está controlada, a afirmação é tecnicamente correta dentro dos parâmetros da política monetária. Essa precisão estatística, porém, não chega ao bolso de quem compra feijão e frango toda semana.

O combustível e a narrativa da culpa

O quadro ficou mais tenso com a alta nos preços dos combustíveis, impulsionada pelo impacto da guerra no Irã sobre o petróleo. O governo federal propôs subsídios para conter o repasse ao consumidor, mas esbarrou na resistência dos estados, que relutam em abrir mão de receita do ICMS. Lula acusou distribuidoras de praticar o que chamou de “falsa inflação”, elevando preços de produtos como o etanol sem qualquer justificativa no cenário externo, conforme o InfoMoney.

Atribuir ao setor privado a maior parte da culpa pela pressão de preços é politicamente conveniente, mas desvia o foco das raízes estruturais do problema. A carga tributária sobre combustíveis envolve decisões tanto do governo federal quanto dos governadores. Não se pode exigir responsabilidade fiscal dos estados enquanto o governo central expande gastos e adia reformas no setor energético.

O que isso significa para 2026

No governo Lula 3, o padrão se repete: crescimento do PIB e desemprego baixo coexistem com insatisfação difusa no varejo. A diferença em relação a mandatos anteriores é que a polarização política amplifica cada alta de preço em desgaste eleitoral imediato. Segundo a Quaest de março de 2026, 46% dos brasileiros veem piora na economia e 43% avaliam negativamente a condução econômica do presidente, de acordo com o Valor Econômico.

Historicamente, governos que chegam ao ciclo eleitoral com percepção negativa de custo de vida enfrentam resistência das urnas mesmo com desemprego baixo. O eleitor médio processa economia pelo bolso, não pelo boletim do Banco Central. Reconhecer esse hiato não é populismo: é diagnóstico mínimo. O que se decide a partir daí é o que distingue política econômica de retórica de campanha.

A pergunta que ficará no ar até outubro de 2026: o governo consegue converter indicadores favoráveis em sensação real de bem-estar antes das eleições, ou vai continuar tentando convencer o eleitor de que ele está errado em se sentir espremido?

Perguntas frequentes

O que é o IPCA e por que ele não reflete o que sinto no supermercado?

O IPCA mede a variação média de preços em uma cesta ampla de bens e serviços para famílias de diversas faixas de renda. Alimentos frescos como hortaliças e carnes podem subir bem acima da média do índice, criando a sensação de inflação maior do que o número oficial sugere.

PIB crescendo significa que minha renda vai aumentar?

Não necessariamente. O PIB mede a produção total da economia, e esse crescimento pode se concentrar em setores que não impactam diretamente o salário do trabalhador médio. Os efeitos de um PIB maior levam tempo para se distribuir de forma mais ampla.

Por que os estados resistem a reduzir o ICMS sobre combustíveis?

O ICMS é uma das principais fontes de receita dos governos estaduais. Abrir mão dessa arrecadação sem garantia de compensação federal representa um risco fiscal que a maioria dos governadores evita, independentemente de partido.

O que é a pesquisa Genial/Quaest e como ela funciona?

É um levantamento de opinião pública realizado pela empresa Quaest em parceria com a gestora Genial Investimentos, com foco em percepção econômica e intenção de voto. Figura entre os principais termômetros eleitorais do Brasil atualmente.

Fontes
  • valor.globo.com — https://valor.globo.com/politica/noticia/2026/01/20/percepcao-negativa-sobre-economia-e-desafio-para-lula.ghtml
  • cnnbrasil.com.br — https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/lula-critica-projecoes-do-mercado-e-volta-a-prever-alta-do-pib-de-38-em-2024
  • infomoney.com.br — https://www.infomoney.com.br/politica/situacao-economica-e-boa-mas-percepcao-da-sociedade-nao-e-diz-lula

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