Tesouro projeta rombo previdenciário de R$ 338 bi e pede nova reforma
Com rombo de R$ 338 bilhões em 2025 e trajetória de alta acelerada, o déficit previdenciário exige nova reforma antes que a conta se torne impagável.
Com rombo de R$ 338 bilhões em 2025 e trajetória de alta acelerada, o déficit previdenciário exige nova reforma antes que a conta se torne impagável.
O Tesouro Nacional divulgou nesta semana uma projeção que deveria encerrar qualquer dúvida sobre a urgência do tema: o déficit previdenciário chegará a R$ 338,1 bilhões em 2025, equivalente a 2,68% do Produto Interno Bruto. O número é pior do que o calculado no ano anterior, quando a estimativa ficava em 2,45% do PIB.
Os dados constam do Balanço Geral da União 2024, divulgado pelo Estadão. Sem mudanças nas regras atuais, a projeção indica que o déficit pode alcançar 11,61% do PIB em 2100, o equivalente a R$ 29,9 trilhões em valores futuros.
A lógica é direta: as receitas previdenciárias crescem pouco, as despesas crescem muito. Em 2025, a arrecadação deve atingir R$ 693,5 bilhões (5,49% do PIB), enquanto os gastos chegam a R$ 1,032 trilhão (8,17% do PIB). Em 2100, a proporção piora: a receita mal sobe, para 5,37% do PIB, enquanto as despesas saltam para 16,98%.
O problema não é novo, mas está ficando mais urgente
A reforma de 2019 reduziu o ritmo de crescimento do déficit, mas não o reverteu. Conforme levantamento publicado pela Folha de S.Paulo, o rombo combinado do INSS, do regime dos servidores civis e dos militares saltou de R$ 271,7 bilhões em 2015 para R$ 442 bilhões em 2025, aumento real de 62,7%. Só no INSS, a parcela descoberta pelas contribuições chegou a R$ 322 bilhões no ano passado.
Um fator estrutural agrava o quadro: a relação entre contribuintes e beneficiários encolhe há anos. Havia 1,7 contribuintes por beneficiário em 2014; em 2024, esse índice caiu para 1,53. A tendência é de queda contínua, pressionada pelo envelhecimento da população.
Estimativas do governo federal incluídas no projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2026 preveem que o rombo do INSS mais do que quadruplicará nos próximos 75 anos. Segundo análise da OABPrev-PR, o sistema de repartição — em que os ativos de hoje financiam os aposentados de hoje — começa a se tornar inviável quando a pirâmide etária se inverte. A queda nas taxas de fecundidade acelera esse processo.
O setor público tem problemas próprios
Para além do INSS, o regime dos servidores civis registrou déficit de R$ 66,6 bilhões em 2025 (0,52% do PIB) e o dos militares, R$ 53,3 bilhões (0,41% do PIB). Juntos, esses dois grupos respondem por quase um quarto do déficit total combinado, servindo uma parcela ínfima da população beneficiária.
Heriberto Nascimento, subsecretário de Contabilidade Pública do Tesouro, afirmou ao Estadão que a discussão sobre novas regras é urgente e precisa ocorrer o quanto antes, abrangendo o regime geral, o dos servidores e o dos militares. O alerta contrasta com o tom adotado em 2024, quando a ministra do Planejamento declarou à InfoMoney que o pente-fino no INSS seria suficiente para zerar o déficit primário neste ano, sem que medidas estruturais fossem anunciadas.
O que os números escondem
Parte do resultado de 2025 contou com fatores temporários: uma fila de cerca de 3 milhões de pedidos represados no INSS adiou pagamentos, e o crescimento da formalização do mercado empurrou receitas para cima. Ambos os efeitos tendem a se dissipar com a desaceleração econômica em curso.
O governo Lula 3 apostou em reajustes reais do salário mínimo acima da inflação como política redistributiva. É uma escolha com custo direto: boa parte dos benefícios previdenciários está indexada ao mínimo, acelerando mecanicamente as despesas. A narrativa oficial, conforme noticiado pelo esquerda.blog, tende a tratar esse impacto como questão separada do déficit previdenciário. Os números do Tesouro sugerem o contrário.
A conta do adiamento
Cada reforma previdenciária é politicamente custosa a curto prazo. O Congresso recebeu uma proposta para o regime dos militares, que ainda não avançou. O dos servidores civis espera. E o regime geral, que atinge a maioria dos trabalhadores, permanece intocado desde 2019.
No governo Lula 2025, a equipe econômica enfrenta a mesma equação que seus antecessores: os números pioram a cada ciclo de projeções. O Balanço Geral da União 2024 não é um alarme novo. É o mesmo alarme que soa mais alto a cada ano que o país decide não atendê-lo.
Perguntas frequentes
Qual é o tamanho do rombo da Previdência em 2025? O Tesouro Nacional projeta déficit de R$ 338,1 bilhões, equivalente a 2,68% do PIB, cobrindo a diferença entre o que é arrecadado e o que é gasto com benefícios previdenciários.
Por que o déficit do INSS tende a crescer mesmo após a reforma de 2019? A reforma freou o ritmo de expansão, mas não reverteu a trajetória. O envelhecimento da população e a queda na fecundidade reduzem proporcionalmente o número de trabalhadores ativos que financiam os aposentados, tornando o sistema progressivamente mais deficitário.
O reajuste do salário mínimo piora o rombo previdenciário? Sim. A maioria dos benefícios pagos pelo INSS é atrelada ao salário mínimo. Aumentos acima da inflação, portanto, elevam automaticamente a despesa previdenciária.
Quando o Brasil precisará de uma nova reforma da Previdência? O próprio Tesouro Nacional indica que a discussão é urgente e abrange o regime geral, o dos servidores civis e o dos militares. Não há prazo definido pelo governo.
- estadao.com.br — https://www.estadao.com.br/economia/projecao-rombo-previdencia-discussao-nova-reforma-tesouro/?srsltid=AfmBOopdEauTw54blEunSVHmsT_dWqotfmFVgo_ARhkT8fvtrJE9gD26
- www1.folha.uol.com.br — https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/02/reforma-da-previdencia-e-questao-fiscal-e-de-justica.shtml
- oabprevpr.org.br — https://www.oabprevpr.org.br/noticias/com-envelhecimento-da-populacao-governo-preve-que-rombo-no-inss-vai-quadruplicar-em-75-anos/
- infomoney.com.br — https://www.infomoney.com.br/politica/pente-fino-garante-deficit-zero-em-2025-mas-nao-e-suficiente-para-2026-diz-tebet/